19 de Junho de 2020
Aulas pelo computador podem causar irritação, tédio e medo nas crianças

Veículo: 
Metrópoles

O coronavírus obrigou as pessoas a transformarem a própria casa em um ambiente multiuso, configurado para várias atividades, incluindo as aulas das crianças. Mas a falta de incentivos para aprender em frente ao computador, sem espaços de socialização e em meio a outras problemáticas da pandemia, tem deixado as crianças inquietas, irritadas, entediadas, com insônia e com sentimentos como solidão e medo.

Essas são as principais mudanças no comportamento infantil, segundo informações da cartilha Crianças na Pandemia de Covid-19, publicada pela Fiocruz no início de maio, quando 91% dos estudantes do mundo todo estavam sem aulas presenciais.

Para a pedagoga e consultora em educação Andrea Bichara, isso ocorre, em parte, porque os pequenos estão tendo mais dificuldade em assimilar conhecimento nas aulas on-line.

“O aluno diz que gosta da escola e das aulas porque gosta de estar entre os colegas, exercendo seu lado sociável. Se você retira a escola e os elementos que tornam o dia a dia escolar atrativo, você evidencia que o modelo engessado não interessa aos alunos, nem desperta o desejo de aprender”, analisa a profissional.

De acordo com a especialista, é preciso pensar em estratégias que, de fato, façam sentido para o modelo de educação em casa.

“A ferramenta pode dar uma falsa ideia de que avançamos. Mas não temos aulas comunicativas, de impacto, que envolvam os alunos. Estamos em um contexto social, político, econômico e sanitário capaz de proporcionar reflexões muito interessantes. Porém, ainda voltados para o caderno. Esse tipo de mudança precisa ser acompanhada pelos pais, que estão tendo a oportunidade de compreender as dificuldades dos seus fihos”, afirma.

Saúde mental

Segundo o psicólogo clínico Danilo Lima Tebaldi, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os pais precisam prestar atenção no comportamento das crianças, manter a transparência no diálogo sobre a pandemia e pensar em estratégias seguras para se distrar junto aos filhos, como fazer um passeio de carro.

“Nesse período de pandemia e consequente isolamento social, a rotina das crianças, inevitavelmente, sofre mudanças. A maior mudança é não ir à escola, e esse período da vida no ambiente escolar é muito relevante. Ficar sem esses momentos em que o pequeno exercita sua socialização, compartilha conhecimentos e os adquire de maneira próxima com professores e educadores pode ser um fator gerador de estresse emocional”, diz o psicólogo.

Ele destaca que os adultos, muitas vezes, pensam que as crianças ignoram o que está acontecendo, e isso não é verdade.

“A criança, mesmo que sem os recursos cognitivos suficientes para entender e interpretar o contexto, sente que há algo ‘diferente’ acontecendo, e isso deve ser conversado. O diálogo é essencial neste momento para que a criança seja corretamente informada e, com isso, os sentimentos de medo e insegurança, normais nessa fase, sejam manejados de maneira adequada.”

 

Patrocínio
Publicações
Este guia integra uma série de publicações editadas pela ANDI – Comunicação e Direitos ao longo da última década, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento da cobertura jornalística.