19 de Fevereiro de 2021
Continue prestando atenção à saúde mental de crianças e adolescentes na pandemia

Veículo: 
CNN Brasil

Por quase um ano, nossos filhos têm navegado pelo novo e difícil normal: isolamento social, pais extremamente estressados, os efeitos da incerteza financeira, a escola em casa ou até mesmo a bordo de ônibus equipados com wifi quando não se tem internet em casa. Embora a própria Covid-19 tenha poupado em grande parte a saúde física das crianças, estudos mostraram que ela afetou a saúde mental dos mais jovens, associando a pandemia ao aumento nos comportamentos relacionados ao suicídio, segundo os especialistas.

O suicídio foi a segunda principal causa de morte entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos nos Estados Unidos em 2018, antes do início da pandemia. Embora as tentativas de suicídio e ideação não tenham sido consistentemente maiores em 2020, uma recente pré-publicação de um artigo revisado por pares na revista “Pediatrics” mostrou alguns aumentos de casos. “Meses com taxas significativamente mais altas de comportamentos relacionados ao suicídio parecem corresponder aos momentos em que os estressores relacionados à Covid-19 e as respostas da comunidade aumentaram, indicando que os jovens experimentaram mais angústia durante esses períodos”, escreveu o relatório, que analisou pessoas com idades entre 11 e 21 anos.

De acordo com a National Suicide Prevention Lifeline (NSPL) dos Estados Unidos, o mês mais recente com dados concluídos, dezembro de 2020, mostra um aumento de 4% no volume de chamadas em comparação com dezembro de 2019, embora nem todos os meses durante a pandemia tenham mostrado aumentos. “Os adolescentes são muito focados em seus pares em circunstâncias normais”, disse Lisa Furst, diretora de programa da Vibrant Emotional Health, que, entre outras coisas, administra o NSPL. “A natureza das medidas de saúde pública, como estudo remoto e distanciamento físico, podem impactar adolescentes e jovens de forma muito significativa porque eles se sentem isolados de seu grupo de pares”.

Muito precisa ser feito em diferentes níveis para ajudar as crianças e jovens, como tornar a terapia acessível e prontamente disponível e melhorar o acesso aos serviços de saúde mental, de acordo com o Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. Mas existem medidas preventivas que os pais e responsáveis podem tomar, tanto imediatas quanto a longo prazo, para filhos que aparentemente estão se saindo bem ou para aqueles em crise.

Reduzir o acesso a “meios letais”

“Uma das maneiras de prevenir tentativas de suicídio pediátrico é manter seus medicamentos trancados”, aconselhou a doutora Julie Williamson, professora associada de anestesiologia e pediatria da Universidade Emory, em Atlanta. "Para os adolescentes, o suicídio costuma ser extremamente impulsivo e não um ato pré-planejado. Portanto, mesmo pequenas barreiras podem impedir que catástrofes aconteçam.”

Os pais devem investir em um cofre para guardar não apenas medicamentos potencialmente fatais, sugeriu a doutora Williamson. “É importante trancar até mesmo remédios sem receita, como o Tylenol”, contou. Isso também ajudará a proteger os filhos contra overdose acidental. "Para crianças menores, é uma maneira de impedir que tomem acidentalmente pílulas ou medicamentos que parecem doces”. A mesma recomendação se aplica a outros objetos potencialmente prejudiciais, especialmente se as crianças se mostram angustiadas. Objetos pontiagudos devem ser escondidos ou armazenados em um local onde somente adultos possam alcançá-los. “Se houver uma arma em casa, livre-se dela por um tempo”, disse Furst.

De olho nos filhos

As especialistas Williamson e Furst sugerem manter um olhar atento sobre todas as crianças durante a pandemia, e não apenas naquelas que expressaram sentimentos de ansiedade ou depressão ou comunicaram o desejo de morrer. Se uma criança ou adolescente fica extremamente irritada ou retraída, ou tem grandes mudanças no apetite ou no sono, pode ser a hora de encontrar um profissional de saúde mental. “Perceber mudanças no comportamento é importante”, afirmou Furst.

Se seu filho ou filha está ativamente em crise, disse Williamson, ligue para linhas diretas de emergência, como, no Brasil, é o CVV (Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188). "Se não for uma crise, comece falando com o pediatra", sugeriu. O médico pode orientar sobre alguém com quem conversar e onde obter ajuda.

Nos Estados Unidos, a campanha #Bethe1To lista cinco passos que cada pessoa pode seguir para ajudar a prevenir o suicídio em pessoas de qualquer idade.

1) A primeira etapa é perguntar de forma direta e imparcial: Você está pensando em suicídio?

2) Siga os passos e cumpra todas as promessas que fizer, estando presente emocionalmente (mesmo que não possa estar presente fisicamente).

3) Mantenha-as seguras, descobrindo se têm um plano real ou se tomaram medidas em direção ao suicídio, para que você saiba o que fazer a seguir, como ir a um pronto-socorro ou impedir o acesso ao método planejado.

4) Ajude-as a se conectar ao CVV, a um terapeuta ou outros recursos da comunidade.

5) E continue de olho: pergunte sempre como estão e a observar, mesmo depois que a crise passar.

Distância física, conexão social

Crianças e adolescentes dependem muito da conexão social, que foi severamente limitada pela pandemia. “Temos que ajudar os jovens a se manterem conectados socialmente tanto quanto possível de maneiras seguras”, disse Furst. Ela observou que o “distanciamento social” é um termo impróprio e o oposto do que as crianças precisam. Precisamos de distanciamento físico, exigido durante a pandemia, mas a proximidade social e emocional é mais importante do que nunca.

“A tecnologia pode ser aproveitada nesse sentido.” É contraditório tentar fazer com que as crianças se conectem digitalmente com os outros e ao mesmo evitar a sobrecarga de tempo de tela ­– mas temos que tentar encontrar um meio termo.

Naturalize a situação

Em março de 2020, muitas pessoas esperavam voltar ao normal depois de alguns meses, mas isso não aconteceu. “Tínhamos esperança de sobreviver ao ano e de a vacina estar aqui, mas a vacinação vem sendo adiada, mesmo para aqueles que a desejam”, disse Williamson. “Pode haver uma onda de decepção agora.”

Todos nós podemos assegurar às crianças que é normal ter dificuldades. “Fale com seus filhos e diga-lhes que este é um momento historicamente difícil para todos”, aconselhou Williamson. E lhes dê essa certeza: “Vai passar”.

Nota do editor: Lisa Selin Davis é autora de “Tomboy: The Surprising History and Future of Girls Who Dare to Be Different” (“Tomboy: A história surpreendente e o futuro das meninas que ousam ser diferentes”, sem edição no Brasil) Ela escreve para o New York Times, CNN, The Wall Street Journal, The Guardian e muitos outros veículos.

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