20 de Junho de 2018
Crianças do Brasil são separadas dos pais nos EUA

Veículo: 
O Estado de S. Paulo

Os irmãos brasileiros de 8, 10 e 17 anos chegaram ao abrigo para menores em Tucson, no Arizona, às 9h30 do dia 29. Assustados, choravam sem saber onde estava a mãe, com quem haviam cruzado a fronteira do México com os EUA. Apreendidos, eles passaram a fazer parte da estatística mais cruel do governo de Donald Trump, a de famílias de imigrantes separadas em razão da política de “tolerância zero” do presidente.

Nas seis semanas entre os dias 19 de abril e 31 de maio, 1.995 menores foram enviados para centros como o que recebeu os três irmãos, enquanto seus pais ou guardiões eram encarcerados em prisões federais. A separação pode durar meses, marcados por incerteza e medo.

Na sexta-feira, 17 dias depois de sua chegada ao abrigo Estrella del Norte, os três irmãos conseguiram conversar pela primeira vez por telefone com a mãe, Jaene Silva de Miranda, que está em um centro de detenção na cidade de Eloy, a 90 km de Tucson. Segundo o Consulado do Brasil em Los Angeles, o contato foi feito a pedido da cônsul-honorária do Brasil no Arizona, Rosilani Novaes, que visitou os menores depois de se encontrar com Jaene. Durante a visita, as crianças disseram que estavam sendo bem tratadas, de acordo com informações dadas pelo consulado.

Mas no dia em que eles chegaram ao local, o sentimento era de pânico, disse o filho de brasileiros nascido na Califórnia Antar Davidson, que trabalhou durante quatro meses no centro Estrella del Norte, que tem capacidade para abrigar 300 crianças e adolescentes. “Os três irmãos estavam muito traumatizados, choravam e se abraçavam”, lembrou o instrutor de capoeira, que disse ter pedido demissão no dia 7 por discordar do tratamento dado aos menores.

A gota d’água foi a ordem para dizer às crianças brasileiras que elas não podiam se abraçar. “A política do centro é que os menores não podem se tocar. Mas não dá para aplicar regras dessa maneira, sem empatia. Não escolhi esse trabalho para fazer isso”, declarou Davidson, que tem 32 anos e dava aulas de capoeira e de inglês.

No dia 30, outros quatro brasileiros chegaram ao Estrella del Norte, relatou. Um tinha 14 anos e os demais, 17. No dia 24, um deles fará 18 anos e será transferido para um centro de detenção para adultos. Ele cruzou a fronteira desacompanhado e o consulado em Los Angeles conseguiu entrar em contato com sua mãe no Brasil. A mãe de outro brasileiro de 17 anos está detida no Texas, enquanto os pais dos outros dois ainda não foram localizados.

Quando Davidson começou a trabalhar no abrigo, em fevereiro, a maioria das crianças havia sido apreendida quando cruzava a fronteira desacompanhada. Nesses casos, as autoridades tentavam localizar pais ou familiares que poderiam se responsabilizar por elas. “Quando os menores chegavam no centro, eles já sabiam que seriam reunificados com a família.”

A situação mudou com a determinação de Trump de processar todos adultos criminalmente sob a acusação de entrarem nos EUA de maneira ilegal e enviá-los a prisões federais. Nas últimas semanas, Davidson passou a ver um número crescente de menores que haviam sido separados dos pais na fronteira, que chegavam ao abrigo sem saber o que aconteceria no futuro. “O que era uma situação transitória passou a ficar cada vez mais permanente, com uma equipe que não estava preparada para lidar com a situação.” Davidson disse que antes dos sete menores que chegaram nos dias 29 e 30, o Estrella del Norte nunca havia recebidos brasileiros.

Além do trauma da separação, eles enfrentaram a barreira da língua, já que as aulas no abrigo são em espanhol, língua da maioria dos imigrantes que chega aos EUA. Davidson disse que era o único funcionário do centro que falava português. Em declarações ao jornal Los Angeles Times, a porta-voz da ONG que administra o abrigo disse que tradutores são contratados para casos como os dos brasileiros. “Nossa equipe tem grande experiência em lidar com essa população”, disse Cindy Casares. “Temos padrões elevados.”

Com o agravamento da crise econômica, cresceu o número de brasileiros que entram nos EUA de maneira clandestina pela fronteira com o México e muitos fazem o trajeto com os filhos. Entidades de defesa de direitos humanos condenam a política de “tolerância zero” e sustentam que ela pode causar danos psicológicos irreversíveis nos menores e em seus pais.

Em maio, um hondurenho de 39 anos cometeu suicídio em uma prisão do Texas depois de ter sido separado da mulher e de seu filho de 3 anos, de acordo com reportagem do Washington Post. Grande parte dos imigrantes da América Central foge da violência e das gangues que tentam cooptar crianças e jovens.

Até mesmo integrantes do Partido Republicano se declaram desconfortáveis com a prática. “Não queremos crianças separadas de seus pais”, disse o presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan. O secretário de Justiça, Jeff Sessions, afirmou que a “tolerância zero” serve para desestimular a entrada de adultos com menores. “Se você está contrabandeando uma criança, nós vamos processá-lo e a criança será separada de você, como exige a lei”, disse.

 

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Publicação mapeia os principais riscos a que estão expostos crianças e adolescentes nas cidades-sede do Mundial 2014 e apresenta as iniciativas desenvolvidas pela sociedade brasileira para garantir os direitos fundamentais desses grupos etários.