06 de Novembro de 2020
Crianças entre 7 e 9 anos ficam mais que o dobro do tempo indicado em celulares

Veículo: 
O Povo

Apesar de a exposição a smartphones e outros equipamentos eletrônicos pode causar diferentes malefícios à saúde das crianças em diferentes faixas etárias, o aumento do tempo de tela era esperado durante a pandemia de Covid-19. Esses dispositivos tornaram-se uma alternativa tanto para estudar quanto para brincar, uma vez que foi necessário aderir a medidas de distanciamento social, as aulas presenciais foram suspensas e as atividades fora de casa não eram mais uma opção.

O aumento da parcela das crianças de sete a nove anos que usam smartphones por pelo menos três horas diárias foi um dos resultados obtidos pela pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box - Crianças e smartphones no Brasil - Outubro de 2020. Em um ano, o índice passou de 30% para 43%. Segundo os resultados da pesquisa, 19% das crianças dessa faixa etária utiliza smartphones diariamente por três horas, e outros 24%, por quatro horas ou mais. A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é que crianças entre seis e dez anos sejam expostas a telas no máximo por uma ou duas horas por dia.

Ao todo, a pesquisa entrevistou 1.982 brasileiros com acesso à internet, que possuem smartphone e são pais de crianças de zero a 12 anos, de forma on-line, entre 9 e 28 de setembro de 2020. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais e o grau de confiança, de 95%. Entrevistados do Nordeste correspondem a 486 respostas, dos quais 82,7% tem filhos de até 12 anos que possuem smartphone próprio ou utilizam os dos pais. Entre os que usam smartphone, 40,3% passam três horas ou mais por dia no aparelho.

Segundo o neuropediatra José Leandro, com as limitações das atividades sem tela mais comuns para essa faixa etária — como aulas presenciais, interação social e prática de atividades físicas —, o aumento do tempo de tela durante a pandemia já era esperado, e o mais preocupante é o tipo de atividades realizadas, e não necessariamente o tempo. "O problema é mais de qualidade do que de quantidade. O tipo de conteúdo visto e o que ele causa em um cérebro em desenvolvimento é o que nos preocupa mais."

Nesse período da vida, as crianças ainda precisam desenvolver funções executivas do cérebro, como controle dos impulsos, autorregulação e pensamento futuro, explica o psiquiatra Nagib Demes, diretor-presidente da Sociedade Cearense de Psiquiatria (Socep). "O uso abusivo pode afetar funções relacionadas a planejamento e raciocínio e aumentar o risco de impulsividade, levando a perda do controle sobre o uso de internet", aponta. "É a idade da autopercepção e da autocrítica", complementa o neurologista.

Impactos no sono e no humor foram alguns sintomas citados pelos especialistas desse reflexo da pandemia no uso de smartphones por crianças. Inversão do ciclo sono-vigília ou até privação de sono, além de maior nível de ansiedade e de estresse ao serem privadas do uso de smartphone foram pontos destacados pelo psiquiatra Nagib Demes. Em alguns casos, há "maior frequência de comportamentos disruptivos opositores e desafiadores".

A luz emitida pela tela dos aparelhos eletrônicos tem impacto no início do sono. Isso ocorre porque a frequência de cor mais azulada impede a produção de melatonina, o hormônio do sono. "Com isso, as crianças têm dormido cada vez mais tarde. O ideal é que o uso de eletrônicos seja interrompido no mínimo uma hora antes da hora de dormir", afirma o neuropediatra.

Ainda pode haver outras consequências. Esse aumento de tempo frente às telas pode ser um risco para o aumento de sintomas relacionados ao desenvolvimento de transtornos mentais, como sinais de ansiedade e depressão e problemas com autoestima, segundo avalia Daniela Dias Furlani Sampaio, mestre em Psicologia e doutora em Educação. "Temos que nos preocupar, quando isso tudo acabar, de resgatar o tempo de tela que seria ideal, que tem uma variação de acordo com a faixa etária e com a rotina da criança, o perfil da família", afirma a psicóloga.

Os recursos tecnológicos, porém, não têm apenas efeito negativo no desenvolvimento infantil. Com supervisão adequada e na faixa etária apropriada, eles podem ajudar no aprendizado e no desenvolvimento de habilidades de comunicação. "Além de possibilitar o contato com diferentes realidades e estimular diálogos sobre a tolerância e o respeito à diversidade de opiniões e culturas", complementa Nagib Demes.

Para reforçar a segurança

O guia "Internet segura para seus filhos", elaborada pelo Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), oferece uma série de recomendações para pais e responsáveis.

Além de explicar sobre cyberbullying e outros riscos a que crianças e adolescentes podem ficar expostos, a publicação estimula o diálogo como principal recurso para que eles reconheçam e evitem esses perigos. Como uma proteção adicional, o guia apresenta como utilizar o recurso do controle parental.

Limites para o uso de telas

Em fevereiro deste ano, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) atualizou recomendações sobre saúde de crianças e adolescentes no contexto digital. Segundo o manual, os tempos máximos a que crianças e adolescentes devem ser expostos a telas diariamente são:

Crianças com idades entre 2 e 5 anos: máximo de 1 hora por dia, sempre com supervisão de pais/cuidadores/ responsáveis;

Crianças com idades entre 6 e 10 anos: máximo de 1 a 2 horas por dia, sempre com supervisão de pais/responsáveis;

Adolescentes entre 11 e 18 anos: de 2 a 3 horas por dia para uso de telas e jogos de videogames. Nunca deixar "virar a noite" jogando;

Para todas as idades: nada de telas durante as refeições e desconectar 1 ou 2 horas antes de dormir;

Não permitir que as crianças e adolescentes fiquem isolados nos quartos com televisão, computador, tablet, celular, smartphones ou com uso de webcam. Estimular o uso nos locais comuns da casa.

 

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