12 de Março de 2018
Estereótipos de gênero influenciam educação de meninas, diz pesquisa

Veículo: 
O Globo

Toda criança carrega desde o primeiro respiro a expectativa: o que vai ser quando crescer? Embora seja uma pergunta ampla, as respostas, geralmente, vêm em caixas carregadas de estereótipos: uma rosa, se é menina, e uma azul, para o menino. Dentro da primeira, carreiras como professora, dançarina, enfermeira. Na segunda: engenheiro, cientista, matemático. Uma pesquisa realizada pela Cadeira Regional Unesco Mulher, Ciência e Tecnologia na América Latina (Flacso Argentina) e pela Associação Civil Chicos.net revela que o cenário evoluiu muito, mas ainda há pontos sensíveis que acabam refletindo em escolhas futuras das crianças.

O estudo, que é uma iniciativa da Disney Latinoamérica, aponta que os padrões construídos para gêneros — que afastam as mulheres de disciplinas relacionadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática, conhecidas (na sigla em inglês) como “Stem” e consideradas as “profissões do futuro” por 88% dos adultos consultados — são observados desde cedo, já dos 6 aos 10 anos.

Foram analisados 360 meninos e meninas nessa faixa etária, 480 mães e pais e 780 professores de escolas públicas e privadas em São Paulo, Buenos Aires e Cidade do México, de nível socioeconômico médio e médio baixo.

Filhos encorajados

A pesquisa expressa em números uma evolução social, como quando aponta que, na capital paulista, 88% dos pais e mães disseram que encorajariam suas filhas a seguir a carreira que escolheram mesmo que ela esteja associada ao “mundo masculino”. Em relação aos filhos homens, 80% dos responsáveis estão de acordo com essa afirmação. A maior taxa de pais que apoiariam os filhos independentemente da escolha foi registrada na Cidade do México, onde 95% incentivariam as filhas a seguir a vocação e 90%, os filhos. Entre as três capitais, o índice mais baixo foi identificado em Buenos Aires, com 73% dos responsáveis apoiando suas meninas e 62%, os meninos.

Mas, ainda que animadora, a alta porcentagem de pais e mães que desconsiderariam os estereótipos de gênero na hora de apoiar a escolha do filho não é tudo. O estudo revela alguns nós que precisam ser desfeitos, entre eles o fato de 9 entre 10 meninas de 6 a 8 anos associarem a engenharia com habilidades masculinas.

— Já não há estereótipos de gênero rígidos como havia nas gerações passadas. Há uma abertura que foi possível após muitos anos de luta dos movimentos de mulheres. Mas essa mudança precisa ser fortalecida e entrar nas escolas através de um modelo de ensino baseado em projetos, resolução de problemas — afirma a diretora de Gênero, Sociedade e Política da Flacso Argentina, Gloria Bonder. — O medo é o que limita a mudança. Vemos que há mais temor em relação aos meninos de que eles escolham uma profissão dita feminina. Os pais temem uma mudança na orientação sexual e também que eles escolham profissões que tenham pouco prestígio e retorno econômico.

Necessidade de exemplos

No caso dos professores, o índice é de 33%. Para ambos, as meninas são melhores em ciências, enquanto os meninos se destacam mais em matemática e informática. Os dois grupos, pais e docentes, atribuem essa disparidade ao mesmo fator: os estímulos que recebem, seja em casa ou na escola. Para seguir o rumo de transformações, na opinião de especialistas, há uma senha: representatividade importa.

— Na escola, os docentes precisam gerar exemplos que tenham tanto mulheres quanto homens. Por que as meninas identificam engenharia com os homens? Porque os exemplos que veem dessa carreira são masculinos. Os professores devem mostrar casos de sucesso da História da ciência envolvendo mulheres. Mulheres que, muitas vezes, foram ocultadas por homens, como Marie Curie — explica Marcela Czarny, fundadora e presidente da Associação Chicos.net, mencionando a cientista que dividiu o Prêmio Nobel de Física com seu marido, Pierre Curie, e o colega Henri Becquerel, em 1903, e depois venceu sozinha a categoria de Química, em 1911. Marie é a única pessoa a ter conquistado a honraria em duas categorias diferentes.

Os conteúdos de entretenimento também desempenham papel importante nessa inversão de padrões. Histórias que modifiquem os papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres — como contos de princesas subordinadas apenas à aspiração de encontrar um príncipe — e as coloquem em posição de liderança, como heroínas ou pesquisadoras, ganham uma posição central na evolução das questões de gênero.

— Temos a responsabilidade de romper os estereótipos em nossas representações e personagens. Há muitos filmes nos últimos tempos que mostram mulheres em outros papéis. No caso da Disney, heroínas como Moana, que enfrenta desafios para salvar sua terra, e Mérida, do filme “Valente”, que luta pelo que quer. Isso no âmbito das animações, mas também há outras produções que mostram mulheres cientistas, que foram importantes para a História da Humanidade — diz Belén Urbaneja, diretora de Cidadania Corporativa da Disney da América Latina, acrescentando que a pesquisa ajudará a idealizar conteúdos e produtos inclusivos para todos os gêneros.

 

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