02 de Maio de 2018
Evasão escolar: a violência que tira o direito à educação

Veículo: 
O Povo

Em uma das maiores escolas do bairro Bom Jardim, cerca de 30% dos mais de mil alunos já tiveram sua rotina de aprendizado afetada diretamente pela violência urbana. Mais precisamente, pela territorialidade imposta pelas organizações criminosas. Não tem direito à educação, não tem espaço público de todos, não tem autonomia, identidade, convivência. É o medo que prevalece. A evasão escolar, que em 2017 chegou a 6,7% dos estudantes do ensino médio cearense, deriva também de um cenário que vai além do desestímulo e da necessidade de produção de renda. 

Em 2016, conforme a pasta, a taxa de evasão foi de 9,7%. O POVO procurou estatísticas recentes que mensurem as motivações para que os jovens deixem os estudos. Não as encontrou. Conforme informações do movimento Todos Pela Educação, também não há pesquisas que demonstrem o abismo que a violência impõe à vida escolar.

Um dos números levantados pelo Relatório do Comitê Cearense Pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, da Assembleia Legislativa, com dados de 2016, dá conta de que apenas 6% das vítimas de assassinatos cursavam o ensino médio, apesar de a maioria ter 15 anos ou mais.

Em seis das sete cidades visitadas pelos pesquisadores as taxas foram superiores a 60% de adolescentes mortos que estavam há pelo menos seis meses fora da escola.

No Grande Bom Jardim, em Fortaleza, o professor de uma escola de ensino médio afirma que alguns alunos apresentam “permanência alternada” na instituição. “Há período em que ele não frequenta, depois volta. Isso é motivado pela proibição do trajeto em trechos que não pode passar. Isso é dito ao aluno e às famílias. Ele sai do ponto A ao C, mas passa pelo B, onde existe um filtro. Temos situações onde o que divide é uma rua, onde os alunos gastariam três minutos para chegar à escola e acabam gastando 15, porque dão uma volta imensa”.

O acompanhamento existe. Quando necessário, conforme o docente, alguém da instituição é designado a ir à residência do aluno e, por muito, escuta: “Meu filho está proibido de passar”.

“Tem a questão dos tiroteios também, que amedrontam. A escola fica em um ponto que, no entorno, percebemos que há uma comercialização (de drogas). Os alunos associam os fogos como sinal de mercadoria chegando e ficam com medo”.

O perigo que tira o direito à escola também é sazonal. “Quando elas (facções criminosas) entram em acordo de respeitar os espaços, tem uma trégua, é mais tranquilo”.

O POVO não conseguiu conversar com nenhuma das famílias ou alunos. As chacinas que ocorreram este ano calaram a voz também de quem não estava lá. O professor garante que os jovens têm consciência do impacto dessa realidade no aprendizado. “Um aluno pediu para trocar de turno e nós fizemos, mesmo não sendo prática. Depois a mãe ligou dizendo que ele não vinha mais. Os colegas que faziam parte da sala praticam alguma forma de delito, no bairro onde ele mora, e ele se sente ameaçado”.

 

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Este guia integra uma série de publicações editadas pela ANDI – Comunicação e Direitos ao longo da última década, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento da cobertura jornalística.