03 de Julho de 2017
A grave relação entre trabalho infantil e evasão escolar

Veículo: 
Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil

Entre as muitas consequências físicas, psicológicas, econômicas e sociais do trabalho infantil está a evasão escolar. No Brasil, 2,5 milhões de crianças e jovens ainda estão fora da escola, segundo um levantamento realizado pelo Todos Pela Educação, com base nos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) 2015.

O ponto mais crítico é o crescimento muito tímido no porcentual de atendimento entre 15 e 17 anos, sendo de 78,8% para apenas 82,6%, de 2005 a 2015. Vale lembrar que dos 2,6 milhões de crianças e adolescentes que trabalham no Brasil, 2 milhões têm entre 14 e 17 anos.

Para Maria Rehder, coordenadora de projetos da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o trabalho infantil tem uma relação direta com a evasão escolar.

“O grande problema é que a maioria dos que estão fora da escola são afrodescendentes, quilombolas, indígenas, deficientes e vítimas de explorações, como o trabalho infantil. Quando uma criança é exposta ao trabalho infantil, ela não frequenta a escola e passa a ser vítima de várias violações”, comentou.

Para Maria, é preciso haver uma ação intersetorial com o objetivo de erradicar o trabalho precoce, paralelamente à exclusão escolar.

“Os caminhos de políticas públicas que eliminam o trabalho infantil não podem estar deslocados de políticas públicas que visam acabar com a evasão escolar. Sempre sugerimos a valorização da educação. Estimulamos diagnósticos locais, onde a rede faça reuniões com as secretarias municipais para analisar os dados e entender quem são as crianças que estão fora da escola.”

Estudos e estatísticas

De acordo com o estudo Trabalho Infantil e Adolescente: impacto econômico e os desafios para a inserção de jovens no mercado de trabalho no Cone Sul, no caso de jornadas de 36 horas semanais, a evasão escolar pode chegar a 40%.

Para a mesma carga de trabalho, a queda no rendimento varia de 10% a 15%, dependendo da série. O desinteresse pelos estudos compromete, no futuro, o ingresso no mercado de trabalho.

Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador aponta que quanto mais precoce é a entrada no mercado de trabalho, menor é a renda obtida ao longo da vida adulta. Esse sistema mantém os altos graus de desigualdade social.

Com poucas oportunidades de estudar, a criança que trabalha geralmente reproduz o perfil de outras gerações da família, que também trabalharam na infância. Sem a conscientização e direito a novas oportunidades que deveria ser garantido por meio de políticas públicas, dificilmente as crianças com este perfil conseguem romper o ciclo da pobreza e miséria de suas famílias.

Em uma análise sobre a relação entre trabalho infantil e desinteresse escolar feita para a Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil, o autor João Henrique Nascimento Dias citou o estudo World Report on Child Labour 2015 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O documento analisa a relação entre crescimento econômico, combate ao trabalho infantil e garantia de dignidade no trabalho por meio de dados de 28 países de renda baixa e média, incluindo o Brasil, além de apresentar os resultados de estudos de caso realizados na Índia, em Bangladesh e no México.

Comparando o desempenho profissional daqueles que começaram a vida laboral já aos 15 anos (ou antes) com aqueles que entraram no mercado de trabalho após essa idade, o relatório revela que o trabalho infantil leva a menor performance acadêmica e a empregos de pouca remuneração.

Ainda de acordo com o artigo, além do comprometimento cognitivo, o trabalho infantil também diminui as chances de que o indivíduo encontre o chamado trabalho decente ou digno. Ou seja, um emprego que englobe perspectivas de aumento de produtividade, renda justa, segurança, proteção social para famílias, liberdade de expressão, igualdade de gênero e integração na sociedade.

Por fim, o autor sugere o investimento em políticas fiscais equilibradas, bem como políticas públicas específicas para os grupos em questão, uma vez que os dados coletados para o relatório apontam que aqueles que abandonam a escola precocemente terão uma vida profissional caracterizada por empregos instáveis e períodos frequentes de desemprego.

“Historicamente, da escravidão às escolhas políticas e econômicas tomadas nos momentos de crise vividos nos últimos dois séculos, o Brasil consistentemente optou por reformas que sacrificavam grandes massas em favor de um suposto bem-estar vindouro. Talvez seja o momento de mudarmos essa tradição de ‘desperdiçar gente’ em nome de um crescimento econômico futuro que é, geralmente, desigual”, concluiu Dias.

 

Patrocínio
Petrobras
Publicações
Este guia integra uma série de publicações editadas pela ANDI – Comunicação e Direitos ao longo da última década, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento da cobertura jornalística.