04 de Setembro de 2017
Pais ignoram o que os filhos fazem na internet

Veículo: 
O Tempo

A maioria dos pais não deixaria seus filhos atravessarem a rua sozinhos ou conversarem com estranhos sem supervisão. Mas, surpreendentemente, quase um quarto deles deixa as crianças e os adolescentes navegarem na internet desacompanhados, e apenas um terço se preocupa com os riscos que os filhos correm no mundo virtual. Os dados são da Pesquisa de Riscos de Segurança para o Consumidor de 2016, da empresa de segurança cibernética Kaspersky Lab, realizada com mais de 12 mil pessoas.

No Brasil, mais de 23 milhões (79%) de crianças e adolescentes de 9 a 17 anos são usuários de internet, conforme levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI). De acordo com o analista de segurança da Kaspersky Lab, Thiago Marques, na maioria das vezes, os pais nem sequer têm o cuidado de saber o que os filhos estão fazendo no mundo digital, com quem estão conversando e que tipo de atividade estão realizando. “O próprio caso do ‘jogo da Baleia Azul’, no qual as pessoas buscavam as crianças e os adolescente justamente nas redes sociais, é um exemplo de perigo”, lembra.

Outras situações de alto risco para a saúde também se tornaram uma prática popular entre os adolescentes depois de ganharem espaço nas redes sociais, como os desafios de comer canela, espirrar desodorante na boca e a “brincadeira (ou jogo) do desmaio”, que consiste em provocar a perda da consciência com a ajuda de outros colegas. Colégios de Paraná, Sergipe, Brasília e Rio de Janeiro registraram alguns casos desde 2014. Na semana passada, uma adolescente de 16 anos fugiu de casa em Belo Horizonte depois de ser proibida de usar as redes sociais. A família não sabia que ela tinha milhares de seguidores por postar imagens sensuais. Felizmente, a garota voltou para casa.

A consultora de implantação Sumara Fernandes, 37, tem um filho de 12 anos que passa cerca de seis horas por dia na frente do computador. Ela teme algumas situações, mas reconhece que nunca tentou usar outros recursos. “Confesso que não sou antenada com tecnologia, então o que eu faço é ouvir as conversas nos jogos para ver se do outro lado está outra criança ou um adulto, e converso muito com ele”, diz.

Na rede

Além dos jogos, até 2016, 80% da demanda da Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos em Belo Horizonte correspondia a casos de ciberbullying – intimidação sistemática ocorrida na internet.

Para Marques, os resultados do estudo da Kaspersky Lab evidenciam a necessidade de os pais terem uma maior consciência dos perigos que rondam a internet. Segundo a pesquisa, 41% das crianças foram expostas a ameaças online no período de 12 meses anterior ao estudo. Essas ameaças incluem a exposição a conteúdo impróprio e contato com estranhos, entre outros.

A estudante e bailarina Maria Clara Marliére, 12, tem mais de 30 mil seguidores no seu perfil no Instagram (@mariacantaencanta), e quem administra a conta é a mãe Wilmara Marliére, 50. Ela reconhece os riscos que a filha poderia correr se não a acompanhasse de perto. “Infelizmente, ela sempre recebe convites de pessoas perguntando a idade dela e fazendo elogios extremamente exagerados. Logo respondo e digo que não é a Maria do outro lado, mas eles muitas vezes insistem, por terem esperança de ela ler e responder. Isso me incomoda, já tive vontade de acabar com a conta. Já troquei a senha várias vezes”, conta.

A mãe se diz “apavorada” e, por isso, também vigia as conversas da filha no aplicativo WhatsApp. “Eles cercam a criança o tempo todo. Inúmeras vezes já pensei que, se ela tivesse sozinha, teria caído em várias armadilhas”, afirma.

Wilmara, porém, é exceção. O estudo também descobriu que um número pequeno de pais toma medidas necessárias para proteger seus filhos: apenas um terço conversa regularmente com as crianças sobre a internet e os perigos online, enquanto um quarto (27%) verifica periodicamente o histórico no navegador da web.

Na opinião da mãe, esse “desinteresse” não é provocado pela falta de informação. Na análise dela, a vida corrida dos pais e a falta de noção de que o perigo realmente existe prejudicam o controle. “Muitos acreditam naquela máxima de que ‘não vai acontecer comigo’, mas eu prefiro cuidar porque pode, sim, acontecer”, completa.

Para Marques, não é preciso proibir, mas controlar e, sobretudo, saber o que está acontecendo no ambiente virtual. “A principal dica é prestar atenção”, diz.

Compras de itens em aplicativos causam rombos

Entre um clique e outro, as cores e os personagens de desenhos animados e de jogos de sites e aplicativos destinados ao público infantil escondem um anúncio publicitário. Fazer compra dentro dessas ferramentas e videogames, por celulares e consoles, pode ser tão fácil que até crianças pequenas adquirem produtos de alto valor sem que os pais percebam (leia no infográfico alguns exemplos).

Dessa forma, além dos prejuízos que a internet pode trazer à saúde física e mental das crianças se não for bem utilizada, a conta bancária dos pais e das mães também corre perigo se eles não se prevenirem quanto aos acessos dos pequenos. Segundo a Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), a Apple já recebeu dezenas de milhares de queixas por compras de apps não autorizadas feitas por crianças.

Depois das denúncias, a empresa decidiu reembolsar os pais. No sistema operacional Android, além da opção de bloqueio, os responsáveis podem comprar cartões vale-presente para serem utilizados.

Pensando nisso, o Movimento Criança Mais Segura na Internet, da Safernet, criou um manual com o passo a passo para ensinar crianças a comprar pela internet.

Números

34% dos pais temem que os filhos sejam vítimas de bullying virtual, diz estudo da Kaspersky

21% acreditam ser melhor que as crianças aprendam sozinhas como usar a internet com segurança

38% conversam regularmente com as crianças sobre a internet e os perigos online

 

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