06 de Novembro de 2017
Tecnologia pode ajudar o Brasil a dar um salto na educação

Veículo: 
Exame

É quase impossível chegar à vila de Oiteiro, no interior de Pernambuco, sem a indicação de uma pessoa que conheça o caminho. A estrada de terra de 10 quilômetros que liga a comunidade de 698 moradores ao centro do município de Vitória de Santo Antão, a 1 hora de Recife, não tem sinalização. A via também não aparece nos aplicativos de mapas e no GPS. E o sinal de celular para de funcionar nos primeiros quilômetros. Os motoristas são obrigados a dirigir devagar por causa dos buracos. Nos dias de chuva, só as caminhonetes e os veículos pesados conseguem vencer a lama. De manhã e à tarde, é comum ver o movimento de carretas transportando alface, cebolinha e outras hortaliças.

A maioria dos habitantes formada por trabalhadores rurais ou agricultores que produzem em pequenas hortas. Cada pé de alface costuma ser vendido por 8 centavos. A agricultora Daniele do Nascimento, de 25 anos, é uma das moradoras. Ela vive com os três filhos — de 11, 9 e 6 anos —, a mãe, Célia, e um irmão de 10 anos. Todos os dias, as crianças se levantam ao amanhecer, ajudam a cuidar da horta da família e, pouco antes das 7 da manhã, atravessam a vila para estudar na única escola de Oiteiro, a Manoel Domingos de Melo, que oferece o ensino fundamental.

A vida rural e a infraestrutura de baixa qualidade contrastam com o que os visitantes encontram dentro da escola. Na Manoel Domingos de Melo, todos os 153 alunos, do 1o ao 5o ano, têm aulas usando tablets e uma internet de alta velocidade, de 40 megabits por segundo. Nas grandes capitais brasileiras, é fácil contratar uma banda larga igual ou mais veloz do que essa. Mas internet rápida ainda é uma raridade nas escolas brasileiras. Entre as escolas urbanas — incluindo as particulares —, somente 7% têm uma conexão parecida.

Já nas rurais, como na Manoel Domingos, ter uma conexão veloz é ainda mais excepcional. Isso só foi possível porque a operadora de telefonia Vivo e a fabricante de equipamentos de telecomunicações Qualcomm instalaram em 2016 uma estação de celular 4G na escola. Com base nas estatísticas, os especialistas estimam que ela seja a escola pública com a melhor conexão de internet por aluno do país.

Vitória de Santo Antão, um município de 111 000 habitantes, é um retrato dos problemas da educação pública Brasil afora. A prefeitura depende dos repasses do governo federal, e todo o orçamento da Secretaria da Educação, de 8 milhões de reais por ano, é usado para pagar os salários de professores e funcionários, segundo o secretário Jarbas Dourado. O resultado é que não há recursos para a compra de equipamentos. Das 63 escolas municipais, que têm 17 000 estudantes, só 15 têm laboratórios de informática, e a velocidade da conexão não passa de 2 Mbps na maioria delas. A situação é parecida em boa parte das escolas brasileiras. Sem a infraestrutura adequada, os professores ficam de mãos atadas. Não há como promover atividades com os alunos usando internet, aplicativos e computadores.

Numa pesquisa pioneira com 4 000 professores da rede pública sobre o uso da tecnologia em sala de aula no Brasil, feita pela ONG Todos Pela Educação em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a maioria dos educadores aponta que suas escolas não têm equipamentos suficientes. A velocidade da internet também não é adequada, os computadores estão desatualizados ou com defeito e faltam materiais digitais pedagógicos. Dos professores, 45% disseram que usariam a tecnologia com mais frequência se houvesse uma estrutura melhor, mesmo se isso aumentasse a carga de trabalho (já 54% dizem que só usariam mais a tecnologia se a carga de trabalho não aumentasse).

“O professor tem de ser o elemento central de qualquer política pública para levar tecnologia para as escolas. Se ele percebe que a infraestrutura não é adequada ou que a tecnologia não vai facilitar seu trabalho, ele não vai utilizar as ferramentas”, diz Olavo Nogueira Filho, gerente de políticas educacionais da Todos Pela Educação. Maria Helena Guimarães de Castro, secretária executiva do Ministério da Educação, reconhece a situação. “Muitas vezes, os professores fazem cursos de capacitação mas não têm conectividade na escola. Os programas de formação continuada dos professores têm de andar juntos com uma melhora do acesso à tecnologia”, diz a secretária executiva. O governo federal prepara um programa para ampliar o acesso à internet nas escolas de educação básica, previsto para ser lançado ainda neste ano.

A Manoel Domingos de Melo pode parecer um caso isolado de uma pequena escola que antes tinha uma infraestrutura ruim, mas, por isso mesmo, fica mais claro observar o ganho para os estudantes quando a tecnologia passa a ser disponível na sala de aula. A reportagem de EXAME testemunhou como os alunos se sentem mais estimulados e se divertem quando fazem tarefas com os tablets — os aparelhos também podem ser levados para casa para resolver as lições.

Os professores incentivam as crianças a fazer as próprias pesquisas e a trabalhar em grupo. A professora Vilma Nascimento Silva, que dá aulas de português para o 4o ano, propôs recentemente um trabalho sobre o descarte inadequado do lixo. As crianças saíram com os tablets filmando e fotografando o lixo jogado nas ruas da vila e fizeram um documentário de 5 minutos, publicado na internet. Não foram só as atividades pedagógicas que ficaram mais estimulantes. O aprendizado também melhorou.

Embora a escola ainda esteja abaixo da média de Pernambuco, os índices de proficiência em matemática e português, medidos na avaliação estadual Saepe, avançaram num ritmo nunca visto na escola. Em matemática, a nota subiu de 154, em 2015, para 175, em 2016. Em português, passou de 144 para 170 (a escala vai até 500, e notas acima de 210 são consideradas as desejáveis). Não dá para afirmar que apenas o uso da tecnologia foi responsável pelo progresso. Também foi feito um trabalho de capacitação de professores e de reorientação pedagógica, coordenado pelo Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife. Mas os resultados mostram que a escola está no caminho certo.

Não é fácil apontar o efeito da tecnologia sobre o aprendizado. Ao longo das últimas décadas, pesquisas feitas em países desenvolvidos e na América Latina não foram capazes de encontrar uma relação de causa e efeito entre o uso da tecnologia e um desempenho educacional melhor. Em 2013, o pesquisador neozelandês John Hattie, especialista no tema, analisou 81 estudos sobre o efeito do uso de computadores nas aulas. A conclusão é que o nível de aprendizado não é maior nem menor do que com outros métodos de ensino. Num trabalho liderado pelo economista Diether Beuermann, da Universidade de Chicago, 1 000 estudantes de ensino fundamental no Peru foram selecionados para receber um laptop para usar na escola e em casa. Cinco meses depois, os testes de matemática e de leitura não mostraram diferenças comparados aos dos alunos que não receberam os computadores.

Em alguns casos, a tecnologia pode até prejudicar. Uma pesquisa recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), baseada nos dados do Pisa — principal teste escolar mundial —, descobriu que o alunos que fazem uso mais frequente de computadores na escola acabam se saindo pior nos testes de leitura do que aqueles que não usam os equipamentos. Os que se saem melhor são aqueles que usam os computadores de forma moderada. “Ainda não temos uma pedagogia preparada para fazer um bom uso da tecnologia. Essa é a ligação que falta”, afirma Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE.

Outra hipótese é que o lado positivo da tecnologia não esteja aparecendo nos testes educacionais. Com acesso à internet, os estudantes aprendem a buscar informações, a ter iniciativa, a trabalhar em grupo, a desenvolver o raciocínio lógico e a adquirir conhecimento além do que é dado em aula. São habilidades essenciais para a sociedade de hoje. Rosa Maria Stalivieri, diretora da escola municipal Zeferino Lopes de Castro, em Viamão, no Rio Grande do Sul, sentiu essa diferença em seus 150 alunos. Em 2013, a escola recebeu 100 netbooks da Fundação Telefônica.

Daí em diante, foi feita uma reformulação no modelo pedagógico. É comum hoje os alunos usarem kits de robótica em sala de aula. “As crianças estão mais críticas, têm um raciocínio lógico mais desenvolvido e falam com mais facilidade sobre os temas que estudam”, diz a diretora.

Já na escola municipal Campos Salles, que fica na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, e é considerada uma das mais inovadoras do país, a mudança pedagógica chegou antes da tecnologia. Inspirada numa experiência bem-sucedida de Portugal, a direção decidiu experimentar uma nova forma de ensinar. Todos os alunos de cada série passaram a estudar num mesmo salão. Eles trabalham em grupos de até quatro estudantes, fazendo os roteiros de estudos propostos pelos professores. Cada grupo define no começo do dia quais roteiros vai fazer.

Os professores — são três por salão — atuam como orientadores e mentores, tirando as dúvidas das crianças. Os alunos também podem fazer pesquisas na internet usando os 200 notebooks da escola. Não existe prova. E as notas de cada estudante são definidas em um conselho de professores e alunos no fim do bimestre, de acordo com o desempenho e o esforço de cada um. “Desde que o projeto foi implementado, a escola vem atingindo ou superando as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica”, diz Daniela Zaneratto Rosa, coordenadora pedagógica, referindo-se à avaliação do MEC conhecida como Ideb.

As experiências das escolas mostram que a tecnologia é fundamental para a formação dos estudantes, mas ela só é bem aproveitada quando complementa o trabalho do professor. É sempre desejável ter os melhores computadores e a melhor conexão na escola, mas o sucesso continua a depender mais da presença de professores capacitados para estimular o aprendizado — usando a lousa, os tablets ou os dois. 

 

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Este guia integra uma série de publicações editadas pela ANDI – Comunicação e Direitos ao longo da última década, com o objetivo de contribuir para o aprimoramento da cobertura jornalística.