Desmatamento na Amazônia recebe pouca atenção da imprensa

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A ANDI analisou o conteúdo editorial de 44 jornais de todo o País e de 4 revistas semanais. Os resultados do estudo aliam dados inéditos a informações de ponta sobre a agenda ambiental

O lançamento da publicação “Imprensa e Desmatamento na Amazônia” busca contribuir com os esforços da sociedade brasileira em impulsionar uma pauta que, embora estratégica, segue desafiando o dia-a-dia das redações

Apesar de ter reduzido consideravelmente as taxas anuais de desmatamento na Amazônia, o Brasil ainda é o País que mais desmata no mundo. No último ano (agosto de 2012 a julho de 2013), o desmatamento aumentou 28% em relação ao período anterior.

Mesmo assim, nos seis anos entre 2007 e 2012, em 44 jornais investigados pela equipe de análise de mídia da ANDI – Comunicação e Direitos, a frequência média da cobertura sobre o problema foi de uma matéria por semana. Muito pouco, se comparado aos indicadores da cobertura sobre outros temas pesquisados pela organização no passado.

Porque a imprensa está encontrando dificuldades em abordar, de maneira sistemática, uma área que corresponde à metade do território brasileiro e é considerada estratégica para o futuro do País? E, em especial, porque não consegue provocar, com a necessária densidade, o debate em torno dos mecanismos de formulação, implementação e avaliação das políticas de combate ao desmatamento?

“Imprensa e Desmatamento na Amazônia”, o documento que traz em detalhes os resultados da análise realizada pela ANDI, apresenta dados que permitem uma compreensão mais próxima da situação. 

  • A baixa densidade informativa dos textos é evidenciada pelo fato de que apenas 1% das matérias sobre desmatamento na Amazônia publicadas no período possui teor investigativo. E não mais do que 14,2% dos textos foram realizados por iniciativa da própria imprensa.
     
  • Embora os governos sejam atores centrais nos esforços para o enfrentamento do fenômeno, soa excessivo que as iniciativas governamentais tenham motivado quase a metade (47,8%) do noticiário dos jornais.
     
  • Da mesma forma, o foco institucional (enquadramento) da cobertura sobre desmatamento é fortemente associado ao Poder Executivo (49,6%).
     
  • Chama atenção, além disso, que menos de um quarto dos textos (23,4%) mencionem soluções para o fenômeno. E, nesse conjunto, o Governo Federal é apontado como principal responsável pelas soluções (54% das vezes).
     
  • Já o Setor Privado raramente é cobrado quanto sua responsabilidade em relação ao desmatamento. Os produtores rurais, por exemplo, são ouvidos como fonte de informação em menos de 3% das notícias.
     
  • Os impactos do desmatamento são foco constante do interesse da imprensa, mas quase sempre em termos ambientais. As consequências para os seres humanos acabam em segundo plano – no total, 16% das matérias citam alguma população vulnerável ao problema.

Em que pesem estes problemas, a análise de mídia “Imprensa e Desmatamento na Amazônia” traz algumas boas notícias:

  • Se apenas os jornais de circulação nacional forem considerados (O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense), a média da cobertura salta de uma para três notícias por semana.
     
  • A imprensa brasileira faz a importante ligação entre desmatamento e mudanças climáticas (que foi o tema principal de 11,7% dos textos) e também coloca o desmatamento no contexto das discussões sobre as políticas ambientais (11,3%).
     
  • A mobilização das ONGs ambientalistas repercute na pauta. Elas têm credibilidade enquanto fontes de informação, tendo sido diretamente ouvidas em 12,3% dos textos.
     
  • Temas relacionados ao desenvolvimento têm presença significativa na cobertura: um terço da amostra pesquisada (33,4%) relaciona de alguma forma o desmatamento com o debate sobre desenvolvimento.

A análise, que também incluiu as quatro principais revistas semanais de notícias (Veja, Época, Isto É e Carta Capital), compilou evidências e reflexões que podem balizar o esforço em cobrir mais e melhor uma pauta que tem desdobramentos extremamente relevantes. “Trabalhamos com 1,5 mil notícias e há material de ponta – inclusive reportagens premiadas. Mas esta é uma pauta complexa e estratégica e precisa de cobertura cotidiana qualificada”, afirmou Veet Vivarta, secretário-executivo da ANDI, no debate de lançamento da análise, realizado no dia 10 de dezembro, em São Paulo.

A repórter especial do Valor Econômico, Daniela Chiaretti, que participou do debate, argumenta que “é caro enviar jornalistas para a Amazônia” e lembra que jornais locais enfrentam dificuldades maiores para cobrir o tema. Ela ressalta que é “difícil saber o que está acontecendo no meio da floresta” e admite ser um problema “tornar a Amazônia interessante para quem não conhece a sua realidade”. O analista ambiental Mauro Pires, consultor técnico do estudo, resume a contribuição da pesquisa no sentido de fortalecer uma cobertura de maior densidade: “Sem mostrar para a imprensa que ela cobre pouco a questão, a situação não vai mudar”.

A análise de mídia é uma das atividades do projeto “Desmatamento na Amazônia na Imprensa Brasileira”, realizado pela ANDI em parceria com a Aliança do Clima e Uso da Terra (CLUA), com o objetivo de apoiar as redações no desenvolvimento de uma cobertura qualificada, independente e plural sobre o tema.

O conteúdo da publicação está disponível para download, na íntegra. Confira em: Imprensa e Desmatamento na Amazônia.

 

Mais informações e marcação de entrevistas:
Maria Benevides (Cassuça) – Quartzo Comunicações
[email protected]
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+55 (61) 3536-9475
+55 (61) 8188-2973

Temas deste texto: Direitos & Justiça - Meio Ambiente - Mídia