08 de Março de 2021
Caminhos do Brincar: projeto visa uma cidade amiga e segura para as crianças

Veículo: 
FEAC

Como seria uma cidade planejada para as crianças? As cidades costumam ser pensadas para carros e adultos, mas de que forma mudar esse cenário, tornando os espaços mais seguros e acolhedores? “Uma cidade boa para as crianças é boa para todos”, declara Claudia Vidigal, representante da Fundação Bernard van Leer, referência em primeira infância.  

Locais públicos podem ser espaços brincantes, estimulando o desenvolvimento socioemocional e fortalecendo vínculos. “Para isso, temos de pensar em segurança, conforto e interatividade”, explica Claudia. “Precisamos de segurança viária, parques, praças. Também temos de pensar em ruas mais confortáveis e interativas. Isso passa por arborização, calçadas maiores, mais planejadas, traffic calming, sinalização de que as crianças estão ali.” 

Caminhos do Brincar, iniciativa da Fundação FEAC, convida todos a usarem as lentes das crianças para melhorar as cidades. É um trabalho em rede, que visa unir organizações presentes nos territórios, o poder público, as crianças e a comunidade. “O grande desafio é a intersetorialidade: deslocar o olhar de quem cuida de criança é a escola e entender que, para cuidar de uma criança, precisa de uma cidade toda”, diz Claudia.

A proposta do Caminhos do Brincar é, a partir de 2021, contribuir para a construção de espaços seguros e amigáveis em Campinas, voltados às crianças, principalmente em territórios de maior vulnerabilidade social, por meio de intervenções participativas. Desse modo, a criança terá mais oportunidades para criar laços com a comunidade e se sentir parte dela.  

“Quanto menos acolhida a criança se sente em seu território, menos sentimento de pertencimento ela desenvolve. Se essa relação for fomentada desde a infância, na fase adulta, ela vai ter muito mais responsabilidade para buscar melhorias e ter uma relação mais positiva com o lugar onde vive”, explica Arthur Goerck, líder do Programa Desenvolvimento Local, da FEAC. Segundo ele, o foco é o fortalecimento do tecido social local. “A intervenção é um norte para agrupar e fortalecer essas relações comunitárias”, diz ele. 

A partir de espaços de brincar, busca-se o fortalecimento da rede local, impactando a comunidade a longo prazo. “É importante respeitar a identidade e a singularidade do território, fazer com que as pessoas se apropriem da história do local. Uma vez que os espaços são construídos, todos vão estar reunidos para que sejam utilizados para esse fim: resgatar o direito da criança de brincar”, destaca Teresinha Klain, pedagoga e analista de projetos da FEAC. 

Os espaços de brincar serão baseados nas expectativas e desejos das crianças. Segundo Juliana Thomazo, líder do Programa Primeira Infância, da FEAC, tirar os sonhos das crianças do papel pode ser mais simples do que imaginamos: “Uma criança perto de uma árvore, por exemplo, é capaz de brincar de muitas coisas, ela só precisa de um lugar mais seguro. Muitas vezes, coisas difíceis estão na cabeça dos adultos, não das crianças”. 

Campinas: desafios e oportunidades

A FEAC realizou o Diagnóstico das condições estruturais das praças públicas de Campinas, em 2019. Segundo o estudo, em Campinas, 53 praças em regiões de vulnerabilidade social possuem potencial para lazer. Desse total, apenas quatro são consideradas ideais, a partir de critérios como vegetação em manutenção, inexistência de acúmulo de lixo, iluminação e estrutura para circulação. Nas demais, existem oportunidades de investimento. 

“Cada vez mais, a gente vê uma infância murada”, observa Arthur. “Isso limita muito o pertencimento das crianças com o território. A gente quer que o espaço seja pensado nelas e no brincar.”  

As crianças em territórios mais vulneráveis são particularmente afetadas, pois contam com limitadas opções de lazer em casa. “Ainda falta muita coisa [em Campinas], principalmente nos locais mais periféricos, que têm pouquíssimos espaços públicos destinados a crianças”, observa Juliana. 

Por outro lado, as políticas públicas de Campinas avançam na pauta da infância: a cidade possui o Primeira Infância Campineira (PIC), plano municipal construído por um comitê municipal intersetorial, incluindo a escuta ativa com crianças. “O PIC é um avanço enorme feito com a escuta das crianças. Então, Campinas é um município que tem voltado seu olhar para trazê-las como protagonistas das definições”, observa Juliana. 

A estratégia baseada na escuta das crianças possui um exemplo de sucesso: a construção do Parque dos Dinossauros, área de lazer localizada no bairro São Domingos, por meio da parceria FEAC/PIC. Na construção do plano municipal, uma criança expressou esse desejo, que foi realizado.  

Agora, o documento norteia o Caminhos do Brincar e é motivo de comemoração para a cidade. “O PIC tem aberto muitas portas e facilitado o diálogo. É o terceiro setor como parceiro do poder público, pensando em estratégias coletivamente”, destaca Arthur. 

Ampliando os caminhos

O Caminhos do Brincar, que está na fase de planejamento, é uma extensão do Caminhos da Escola, realizado pela FEAC em parceria com a comunidade da região dos Amarais em Campinas, em 2018 e 2019. O projeto realizou diversas intervenções lúdicas em trajetos escola-casa. “No Caminhos da Escola, as mudanças foram mais lúdicas, estéticas. Agora, estamos com a ambição de trazer mudanças mais estruturais para o território”, explica Arthur.  

Claudia Vidigal observa que caminhos para creches ou escolas são as zonas prioritárias: é importante focar nesses trajetos, onde as crianças mais circulam. A partir daí, as ações podem ser ampliadas para o resto da cidade.  

Durante o planejamento, o Caminhos da Escola passou pelo mapeamento urbanístico e afetivo. No primeiro, foi realizada uma caminhada com as crianças pelo entorno das escolas para elas ajudarem a identificar os principais desafios e potenciais de intervenção. As crianças, aliás, participaram de todo o processo.  

Em um segundo momento, elas realizaram o mapeamento afetivo, identificando onde se sentem inseguras e onde se sentem mais acolhidas. “Esses locais, normalmente, têm relação com pessoas, como a casa de alguém. A gente tem um diálogo com essa pessoa, para fortalecer algo que já acontece, e o local é oficialmente reconhecido como ponto amigo da criança”, explica Arthur. 

Com o Caminhos do Brincar, as crianças continuarão a ser ouvidas e ativas nas intervenções das comunidades. Junto às lideranças locais, a agenda da primeira infância em Campinas está pronta para alcançar voos maiores. 

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