18 de Dezembro de 2020
Crescem em SP casos e internações por Covid-19 entre crianças de até dez anos

Veículo: 
Folha de S. Paulo

Hospitais públicos e privados de São Paulo registraram em novembro um aumento de casos e internações por Covid-19 em crianças, em relação a outubro, acendendo um alerta para o impacto da infecção também no público infantil. Nos meses anteriores, não houve variações significantes.

Embora os pequenos de até dez anos representem apenas 1,43% do total de internações e 0,31% das mortes por Covid no país, os especialistas chamam a atenção para o fato de eles não estão tão imunes como muita gente imagina.

Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostram que, na faixa etária entre zero e nove anos, foram 18 internações por Srag (Síndrome Respiratória Aguda Grave) causada por Covid em outubro, contra 43 em novembro. Os dados são das redes pública e privada de saúde.

No Sabará Hospital Infantil, por exemplo, as internações infantis por Covid quadruplicaram nesse período, passando de 3 para 12. Os diagnósticos positivos para o Sars-Cov-2 saltaram de 53 para 101, um aumento de 90%. O Samaritano informou que também registrou aumento, mas que, devido à variações constantes dos dados, não informaria os números.

“Os números revelam o que está acontecendo com os adultos. Quando se faz a investigação epidemiológica, a gente vê que as crianças estão se infectando dentro de suas casas, porque os seus pais ou outros contactantes estão adoecendo”, diz o infectologista Francisco Ivanildo Oliveira, gerente médico do Sabará.

Segundo ele, na grande maioria dos casos, as crianças tendem a evoluir bem, adoecem muito menos que os adultos e têm menor necessidade de internação. Mas, se já tiverem problemas de saúde preexistentes (comorbidades), há risco de complicações.

Na última terça (8), cinco crianças estavam na UTI do Sabará (uma com confirmação de Covid e outras quatro com suspeita). Desde o início da pandemia, o hospital registrou um óbito, de uma criança que teve a síndrome multissistêmica inflamatória, reação grave associada ao coronavírus.

“Se o velhinho tiver múltiplas comorbidades, o risco de morrer por Covid é maior. A mesma coisa, em menor proporção, pode acontecer com as crianças”, diz Oliveira.

No caso da síndrome, porém, até crianças saudáveis podem desenvolvê-la, embora sejam quadros pouco frequentes. “A gente não sabe ainda quais os fatores de risco que estão associados a ela. É uma complicação tardia, quando ela parece já não tem mais atividade viral”, explica.

Um levantamento inédito da Vital Strategies mostra que, de março a outubro, 6.303 crianças com até dez anos foram hospitalizadas no Brasil por Srag causada pela Covid-19. Dessas, 510 morreram. Nos Estados Unidos, até setembro de 2020, haviam sido reportadas 103 mortes de crianças por Covid.

A maioria das crianças brasileiras infectadas infectadas (4.752) tinha menos de cinco anos—2.198 não haviam completado o primeiro ano de vida.

Segundo a médica Fátima Marinho, pesquisadora senior da Vital Strategies e professora de saúde pública da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), no auge da pandemia, houve um aumento na taxa de letalidade hospitalar de crianças abaixo de cinco anos, o que pode indicar uma eventual associação com a Covid.

As maiores variações, comparando com 2019, ocorreram nos meses de abril e maio de 2020 (2,9 e 3 por 10 mil, respectivamente), com mais de 80% de aumento.

“À medida que você faz pouco teste em criança, você também não identifica precocemente o caso, o que pode contribuir para um pior desfecho. A criança pode ter uma clínica diferente, por exemplo, febre e dor abdominal. É diferente do quadro respiratório clássico do adulto.”

Para ela, é importante que os médicos e os pais estejam atentos ao impacto da Covid nesse público infantil. “A criança até dois anos interage mais e, assim, fica mais exposta. É a que está sendo mais infectada”, afirma.

Segundo a médica, dados preliminares apontam que crianças pequenas com comorbidades, como asma e diabetes tipo 1, têm maior risco de apresentar quadros mais graves da doença. “Mas temos casos graves também de crianças sem nenhuma comorbidade [caso da síndrome inflamatória multissistêmica].”

Os diagnósticos positivos de Covid entre crianças de zero a dez anos têm aumentado em vários municípios paulistas, segundo o Info Tracker, projeto da USP e Unesp que monitora a pandemia.

Na Grande São Paulo, Osasco teve alta de 113% (de 15 para 32), Barueri, de 47% (19 para 28), São Caetano do Sul, de 27% (11 para 14). No interior, São José do Rio Preto registrou aumento de 214% (78 para 245), Botucatu de 18 para 32 (78%) e Campinas, de 53 para 63 (18%).

“Como as aulas estão suspensas na maioria das escolas, isso leva à hipótese de que os adultos não só estão disseminando o vírus para as faixas acima de 60 anos mas também para as crianças dentro de suas próprias casas”, diz Wallace Casaca, professor da Unesp e coordenador do Info Tracker.

No Hospital Nove de Julho (SP), dos 61 casos positivos de Covid em crianças neste ano, 24 foram em novembro (39% do total). Em outubro, foram apenas quatro casos. A instituição teve uma internação nesse período.

O hospital também registra aumento de queixas de doenças respiratórias, cenário normalmente visto entre março e junho. Em novembro, foram atendidas 203 crianças, contra 143 em outubro.

“A gente não teve antes porque as pessoas estavam em casa, foi auge do distanciamento social”, diz a pediatra Camila Luizetto, coordenadora do PS infantil do Nove de Julho.

Além do receio da Covid, as famílias buscam o diagnóstico para organizar o isolamento da criança em uma eventual confirmação. “Muitas vezes, elas estão sob cuidados de um idoso ou de alguém de algum grupo de risco”, afirma a médica.

Sabará desenvolve protocolo para retomada de aulas

O Sabará Hospital Infantil desenvolveu, em parceria com algumas escolas, um protocolo de cuidados para a retomada das aulas, fornecendo suporte e orientação aos pais, alunos e cuidadores durante a pandemia.

Segundo Francisco Ivanildo Oliveira, gerente médico do hospital, o projeto piloto envolve duas escolas e foi desenvolvido a partir das diretrizes nacionais e internacionais com especialistas, educadores e pais para minimizar os riscos de contaminação.

Até o momento, não foi registrado nenhum contágio entre as crianças. “Tivemos casos entre os adultos jovens, professores e outras categorias profissionais.”

O Brasil é um dos poucos países em que as escolas estão fechadas durante a alta recente dos casos de Covid-19.

Em São Paulo, a capital e outras regiões regrediram para a fase amarela, o que restringiu horários de comércios e serviços. Mas o governo estadual não mudou a orientação para as escolas: continuam autorizadas a abrir parcialmente.

No entanto, a decisão final cabe aos municípios —e somente 219 de 645 seguiram a orientação. Na capital, por exemplo, estão liberadas aulas regulares para o ensino médio e apenas atividades extracurriculares para educação infantil e ensino fundamental.

A Secretaria Municipal de Saúde, por sua vez, apontou para estudos sorológicos que mostram uma prevalência do vírus, em média, em 16% das crianças, sendo que 65% desses casos são assintomáticos.

Além disso, 25% dos alunos residem com pessoas maiores de 60 anos, que são grupo de risco. Afirma ainda que a contaminação dos professores aumentaria com o convívio com as crianças.

 

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