Como evitar atentados de extrema direita nas escolas brasileiras

Veículo: Ponte Jornalismo - SP
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A ascensão da extrema-direita no governo federal e em todas as outras esferas da política institucional brasileira veio acompanhada de um aumento cada vez mais perceptível de episódios envolvendo violência política (física ou simbólica) em escolas e espaços de ensino país afora.

Em 2022, o que era tendência começou a tomar ares de início de epidemia — apenas no segundo semestre deste ano, foram quatro atentados em escolas no país, sem contar as pichações com conteúdos nazifascistas, ameaças e agressões verbais registradas cada vez mais regularmente, inclusive em universidades, como denunciado por alunos do Centro Residencial da Universidade de São Paulo (USP) no início de dezembro. O auge parece ter chegado no dia 25 de novembro, quando um adolescente de 16 anos atacou duas escolas em Aracruz (ES), matando quatro pessoas e ferindo outras 12 ao invadir duas escolas — em uma delas a mãe dele, uma professora aposentada, já deu aula.

O atirador estava armado com um revólver e uma pistola semiautomática , ambas de propriedade do pai, tenente da Polícia Militar (a pistola pertencia à corporação). Segundo a polícia, um emblema vermelho que estava grudado à roupa que o jovem usou no ataque seria um símbolo nazista, e a motivação do atentado teria sido o bullying que sofreu de colegas.

O atentado, repudiado publicamente pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) (e ignorado pelo futuro ex-presidente Jair Bolsonaro [PL]), incentivou a equipe de transição da nova administração federal a procurar recursos para tentar frear essa onda de violência.

Daniel Cara, dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e um dos 22 coordenadores do Grupo Temático de Educação do Gabinete de Transição convocou 11 pesquisadoras e ativistas para elaborar o  relatório “O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental”, publicado na terça-feira (13/12).

Com base em reportagens publicadas na imprensa, o grupo listou 16 ataques do tipo ocorridos no país desde 2000. De lá para cá, foram 35 pessoas mortas e 72 feridas. “Não é fácil escrever sobre esse tema, as pessoas acham que a extrema direita no Brasil não está extremada, não mobiliza os jovens e que esse impulso neonazista é passageiro”, explicou Cara em entrevista. “Não há nenhum indicador de que isso é passageiro, pelo contrário, é um processo que veio para ficar e que me preocupa assustadoramente.”

Inspiração de extrema-direita

Segundo as pesquisadoras, a extrema direita coopta adolescentes que praticam esses ataques ao se fundamentar “em perspectivas políticas que incluem a defesa de um pensamento deturpado de ‘lei e ordem’, da justificação do abuso da força policial como solução estrutural para ‘o problema de violência’, do antiparlamentarismo, do antipluralismo, do anticomunismo, da perseguição ao pensamento de esquerda, do racismo, da misoginia e da xenofobia”.

E existe um perfil predominante nesses atentados: a maioria dos autores são meninos brancos, heterossexuais e cisgênero (que se identificam com o gênero de nascimento), indica Luka Franca, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Direito, Desenvolvimento e Descolonização da Universidade São Judas Tadeu (USJT/CNPQ), integrante da coordenação estadual do Movimento Negro Unificado (MNU-SP) e mãe de uma adolescente de 13 anos.

“Esses tipos de ataques estão diretamente ligados à misoginia [ódio por mulheres]”, enfatiza Franca, que participou da elaboração do relatório. “É o fato de que a maioria das vítimas de escola que a gente tem no Brasil são de meninas e mulheres. Não foi um caso apenas de Aracruz, não foi um caso apenas de Suzano, não foi um caso apenas da Bahia, não foi um caso apenas em Realengo.”

O primeiro ataque em uma escola brasileira foi em 2002, em Salvador (BA). Um estudante de 17 anos usou a arma de seu pai, um policial civil, para atirar nas vítimas. Já o segundo, um dos mais mortais até hoje, ocorreu em 2011 em Realengo (RJ). O atirador era um ex-aluno e matou 12 alunos adolescentes, com idades entre 13 e 15 anos (10 meninas e dois meninos). Testemunhas disseram na época que ele atirava nos meninos para ferir e nas meninas para matar.

Nos Estados Unidos, país que concentra o maior número de atentados do gênero, segundo o jornal Washington Post até 2022 foram contabilizados 331 escolas atacadas, com um total de 554 vítimas — 185 mortos e 369 feridos.

O documento rejeita a noção comum de que os responsáveis seriam exclusiva ou indiretamente motivados por bullying, ou por uma suposta negligência parental. Na realidade, os atiradores se tornaram violentos a partir de um processo de cooptação da extrema direita e com um desejo condicionado para se associarem a ela através da exposição midiática.

Além disso, o grupo coloca a escola como mais uma vítima, não um espaço que produz violência. “É importante a gente pensar os processos de acolhimento na escola não apenas do ponto de vista dos professores, da gestão, mas de fortalecimento da comunidade escolar, de trazer isso mais para dentro, inclusive acabar os tabus e atuar de uma forma preventiva”, aponta Luka.

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