Pobreza menstrual: Conheça o problema que leva brasileiras a deixarem de estudar

Veículo: CNN Brasil
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Uma em cada dez meninas no mundo deixam de ir à escola quando estão menstruadas. No Brasil, estima-se que sejam uma em cada quatro. Falta de condição financeira para comprar absorventes e de estruturas sanitárias estão entre as causas do problema batizado de pobreza menstrual e reconhecido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A pobreza menstrual, como o nome já diz, tem a ver com pobreza no sentido literal. É caracterizada pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e até conhecimento por parte de mulheres para cuidados que envolvam a própria menstruação.

Trata-se de um fenômeno afetado pela desigualdade social, racial e de renda, segundo o levantamento “Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos”, realizado pelo Unicef  (veja quadro).

Falta de acesso à água

“A pobreza menstrual não diz respeito somente a falta de absorvente, ela remete à discussão da falta de acesso à água, é a ponta do iceberg”, afirma a tocoginecologista Brena Melo, coordenadora da Enfermaria de Alto Risco do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), no Recife (PE).

Melo afirma que a falta de acesso à água impede uma higiene adequada no período menstrual em qualquer método de absorção do sangue – por absorventes descartáveis, coletores menstruais ou toalhas. É necessário que haja troca sempre que o absorvente estiver molhado, os coletores devem ser lavados em água corrente, e as toalhas precisam ser lavadas com água e sabão e secas ao sol para evitar a proliferação de bactérias. “Mas como fazer isso sem água?”, questiona.

Fora isso, como meninas menstruam por volta dos 12 anos, elas ficam dependentes de familiares para adquirir absorventes ou outras maneiras de conter o sangue menstrual. E quando a família passa por necessidade financeira, o assunto passa longe de ser prioridade.

Uma pesquisa de 2018 feita por uma marca de absorventes apontou que 22% das meninas de 12 a 14 anos no Brasil não têm acesso a produtos higiênicos adequados durante o período menstrual. A porcentagem sobe para 26% entre as adolescentes de 15 a 17 anos. Isso propicia a evasão escolar, fazendo com que cheguem a perder até 45 dias de aula a cada ano letivo.

“A falta de condições de higiene nas escolas reforça o absenteísmo por apresentar a escola como um “ambiente desagradável”, afirma a ginecologista.

Questão de direitos humanos

Segundo a representante do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (UNFPA, na sigla em inglês), Astrid Bant, a ausência de condições sanitárias mínimas para que as mulheres possam gerenciar sua menstruação é uma violação de direitos humanos e uma condição que distancia o país do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o ODS 3, relacionado à saúde e ao bem-estar.

“Quando não permitimos que uma menina possa passar por esse período de forma adequada, estamos violando sua dignidade. É urgente discutir meios de garantir a saúde menstrual, com a construção de políticas públicas eficazes, distribuição gratuita de absorventes e uma educação abrangente para que as meninas também conheçam seu corpo e o que acontece com ele durante o ciclo menstrual”, afirmou em nota no site da Unicef.

Mas como garantir dignidade menstrual quando falta dinheiro para sobreviver? Foi pensando nisso que a publicitária Larissa Maia, 38, criou o projeto Sangue Nosso, que faz doações de absorventes e kits de higiene para moradoras de comunidades e mulheres em situação de rua em Fortaleza (CE) e em cidades próximas.

A ideia veio depois de assistir ao documentário “Absorvendo o Tabu” (Netflix), em 2018, que mostra como indianas de um vilarejo rural sofrem com doenças por usarem panos em vez de absorventes durante a menstruação. Sem condições de lavar os panos adequadamente, eles se tornaram um campo de bactérias, contaminando e levando muitas mulheres à morte – a face mais cruel da pobreza menstrual.

Impactada com o que viu, Maia se perguntou como seria a situação no Brasil e pensou nas mulheres em situação de rua. Então, em novembro de 2019, ela distribuiu absorventes pela primeira vez para mulheres que viviam nos arredores de uma praça no centro de Fortaleza.

Com o tempo, percebeu que as necessidades eram maiores, e atualmente entrega mensalmente kits com absorventes, calcinha, sabonete, papel higiênico, escova e pasta de dente para mulheres em situação de rua e para moradoras de diversas comunidades.

Larissa ouviu muitos relatos de mulheres que usavam papel higiênico, papelão ou miolo de pão para cessar o fluxo. Tais práticas podem levar a infecções vaginais, que se não forem cuidadas podem causar sérios problemas de saúde às mulheres, explica a ginecologista do IMIP.

Políticas públicas

Outras iniciativas de entrega de absorventes estão ganhando força de lei em diferentes estados, graças ao ativismo social do coletivo de jovens Girl Up Brasil, que pressiona por políticas públicas que envolvam a entrega de absorventes e o acesso à água e sabonetes em banheiros de escolas públicas.

O ativismo brasileiro é um braço do Girl Up, movimento criado na Organização das Nações Unidas (ONU), em 2010, que oferece oportunidades e discute direitos e acesso à educação e liderança de meninas em todo o mundo. No Brasil, a organização atua em mais de 150 coletivos de meninas em 23 Estados do país, segundo a estudante e ativista do Girl Up Brasil Luísa Caldas, de 17 anos, do Rio de Janeiro (RJ).

Luísa recebeu mentorias da Girl Up e atuou com outras meninas cariocas para fazer pressão entre os políticos para aprovar o PL 1056/2019, que trata da distribuição de absorventes de forma gratuita em escolas públicas da rede estadual de ensino. O movimento atuou diretamente na aprovação de outros projetos de lei semelhantes no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul.

Segundo a Girl Up Brasil, 11 projetos de lei para distribuição de absorventes foram protocolados no país, mas somente três se tornaram leis, de fato – no Rio de Janeiro, no Distrito Federal e no Mato Grosso. Todos preveem a distribuições de absorventes higiênicos em escolas públicas. No Mato Grosso, cuja votação aconteceu nesta terça-feira (15), a lei prevê também a distribuição de absorventes higiênicos nos postos de saúde.

SP vai distribuir absorventes nas escolas

Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB), anunciou nesta segunda-feira (14) a implantação do “Programa Dignidade Íntima” na rede estadual de ensino. A iniciativa distribuirá absorventes e investirá na reforma dos banheiros de todas as escolas da rede estadual. Segundo o governo estadual, serão investidos mais de R$ 30 milhões para atender 1,3 milhão de alunas de mais de 5 mil escolas públicas, com idades entre 10 e 18 anos.

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