Uma a cada 4 crianças e adolescentes teve sinais de ansiedade e depressão na pandemia, aponta estudo

Veículo: Agência Câmara - BR
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Uma em cada quatro crianças e adolescentes ouvidos em estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) apresentou ansiedade e depressão durante a pandemia com níveis clínicos – ou seja, com necessidade de intervenção de especialistas. Os dados foram apresentados à Comissão Externa de Enfrentamento à Covid-19 da Câmara dos Deputados, nesta quinta-feira (17), pelo coordenador da pesquisa, o psiquiatra de crianças e adolescentes Guilherme Polanczyk.

A pesquisa monitorou a saúde mental de 7 mil crianças e adolescentes de todo o País desde junho do ano passado. Polanczyk salientou que a pandemia é uma situação de estresse que pode levar ao desenvolvimento ou ao agravamento de transtornos mentais em indivíduos suscetíveis. Os efeitos piores são esperados em crianças mais vulneráveis.

O deputado Dr. Zacharias Calil (DEM-GO) pediu a realização do debate para discutir a chamada “síndrome da gaiola” – medo de ir à escola e sair de casa agravado pela pandemia –, mas no decorrer da audiência a discussão foi ampliada. O nome da síndrome é uma analogia ao comportamento de aves que crescem em cativeiro e, quando a gaiola é aberta e elas têm a oportunidade de voar, continuam lá dentro.

Suicídio entre adolescentes
Guilherme Polanczyk expôs também dados mais gerais, não relacionados especificamente com a pandemia. Segundo ele, uma em cada seis crianças e adolescentes no mundo são afetadas por algum transtorno mental. No Brasil, dos 69 milhões de pessoas com 0 a 19 anos, há registro de 10,3 milhões de casos de transtornos.

Conforme o psiquiatra, a saúde mental de crianças e adolescentes é altamente negligenciada. “Os casos são silenciosos, e uma parcela ínfima dos casos estão sendo acompanhados e têm acesso a serviços”, disse.

“Em todo o mundo a depressão é uma das principais causas de incapacidade entre adolescentes”, apontou. “O suicídio é em alguns países a segunda, e em outros, a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos”, completou. De acordo com o médico, o número só aumenta, adquiriu contornos dramáticos e não recebe a atenção devida.

Para lidar com o problema, o médico defende a articulação entre escola, pais e serviços de saúde. Ele disse que devem existir serviços voltados para atender indivíduos dessa faixa etária – hoje escassos – e que deve ser implementado esse tipo de programa também nas escolas.

Além disso, uma relação familiar saudável ajuda a proteger contra o desenvolvimento desses transtornos. Ele observou que, entre adultos com transtornos mentais, 48,4% deles tiveram o início do transtorno até 18 anos. “Estamos falando do futuro da nossa nação”, salientou.

Síndrome da gaiola
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Wilmer Bottura afirmou que a mídia, o governo e autoridades apresentam informações de forma confusa na pandemia, gerando mais medo ainda. “Neste momento ninguém está sem medo de sair de casa, as crianças, muitas delas, também, muitas vezes pela reação dos pais”, disse. “Nós precisamos tranquilizar principalmente os pais, e aumentar a quantidade de diálogo na família”, completou. Segundo ele, o medo é inevitável, mas pode ser de um tamanho que não paralise.

Já a especialista em Psiquiatria Infanto-Juvenil Gabriela Judith Crenzel enfatizou que o medo de sair de casa é real e concreto. “Nós, Brasil, só vacinamos 11,4% da população com as duas doses e 27,5% com a primeira dose, então ainda estamos muito longe de pensar na irracionalidade desse medo”, avaliou. “Temos que trazer as crianças e adolescentes de volta para a escola, mas temos que encarar que o principal motivo da angústia é real”, frisou.

A médica considera esperado o medo de crianças de sair depois de muito tempo em casa. Para ela, muitas enfrentam sentimentos ambivalentes – ansiedade de encontrar amigos e medo de infectar parentes, por exemplo. Essa ambivalência deve ser acolhida e compreendida e contornada conjuntamente pelos profissionais da saúde, da educação e das famílias.

Escolas públicas
Gabriela ressaltou ainda que muitas escolas públicas ainda não estão recebendo crianças e adolescentes, enquanto praticamente todas as escolas particulares retornam às atividades. “Vamos ter que ter um trabalho pró-ativo de ir atrás das crianças e adolescentes para eles voltarem para a escola”, frisou.

Ela acredita que ainda não é possível dimensionar o tamanho da evasão escolar. E observou que essas crianças e adolescentes que não estão na escola estão em isolamento e que, ao deixar de ir para a escola, perdem espaço de socialização, de liberdade e de garantir sua nutrição.

Para a psiquiatra, a escola deve ser cada vez mais pensada como um lugar não apenas de transmissão de conteúdo, mas como um espaço de saúde mental e de pertencimento.

“Nós não temos mais condições de manter as escolas fechadas, porque além do fator emocional, tem o fator nutricional e a saúde mental das crianças”, reiterou o deputado Dr. Zacharias Calil. Para ele, é essencial que todas as escolas reabram no segundo semestre.

Papel dos professores
A psicopedagoga Angela Soares destacou que, em geral, professores têm poucos recursos e conhecimentos para ajudar os alunos. “O momento também é de pandemia histórica, social e humana”, frisou. Para ela, o medo de sair de casa pode não ser só da pandemia, mas também fruto de ansiedade por questões em casa e falta de estrutura nas escolas. Ela reiterou que a crise mental das crianças e adolescentes já vem de antes da pandemia. E acrescentou que se trata de uma geração que não sabe lidar com frustações.

Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia – Seção Goiás, Maria do Carmo Abreu acredita que o afeto precisa ser incluído no âmbito da educação. Além disso, a noção de saúde deve incluir a saúde mental, inclusive para pessoas de baixa renda. Conforme ela, as pessoas foram arrancadas do seu modo de viver pela pandemia, trazendo alto grau de incerteza e angústia. Como possíveis saídas “desse território movediço”, citou o diálogo; a escuta de sentimentos, valorizando-os; dar tempo e ter tolerância; ter espaço para a solitude; e buscar esclarecimentos sobre os temas.

Internet, luto e vulnerabilidade
A psicopedagoga Bianca Granado chamou atenção para o acesso das crianças a todos os tipos de informação pela internet, que precisam ser assunto de diálogo em casa. Além disso, ressaltou que as escolas devem ter olhar atento para os alunos e ter parceria com as famílias, alertando os pais para as questões dos filhos e ajudando as famílias.

Secretário de Desenvolvimento Social de Goiás, Wellington Matos salientou que outras questões importantes agora são o luto das crianças das adolescentes e a vulnerabilidade financeira das famílias. Ele também acredita que os problemas têm de ser tratados de forma coletiva e também individualmente.

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