Investigação internacional apoiada pela RSF expõe tentativas das big techs de enfraquecer regulações do espaço informacional no mundo
No Canadá, Brasil, Colômbia, Indonésia, Austrália e além, gigantes da tecnologia como Google e Meta têm adotado estratégias agressivas de lobby para barrar ou enfraquecer legislações voltadas à regulação das plataformas digitais — muitas vezes por meio de redes opacas de influência e campanhas de desinformação. A maior vítima? O direito da sociedade à informação confiável. A série investigativa “A Mão Invisível das Big Techs” expõe as táticas dessas corporações em mais de 20 reportagens publicadas entre 9 e 24 de setembro por um consórcio global de 17 veículos de mídia em 13 países. Liderado pela Agência Pública e pelo Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP), com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o projeto revela os esforços globais para reescrever ou bloquear legislações destinadas a proteger dados de usuários, crianças e o próprio jornalismo.
A investigação jornalística colaborativa e transnacional identificou quase 3.000 ações de lobby feitas pelas big techs contra governos e parlamentos ao redor do mundo — todas documentadas em um banco de dados interativo e público. Mais de 40 jornalistas de 17 veículos em 13 países participaram do projeto, que durou nove meses e começou a publicar suas histórias em 9 de setembro. A RSF contribuiu como consultora técnica em temas de legislação, regulação e nas táticas de lobby usadas pelas plataformas digitais para dificultar a regulação do espaço informacional online.
“Essa investigação inédita, conduzida com ajuda da RSF, mostra a enorme influência que as grandes corporações de tecnologia exercem sobre decisões estratégicas que afetam diretamente o futuro do jornalismo, seja por meio de lobbies contra legislações democráticas ou de esforços para evitar uma remuneração justa pelo conteúdo jornalístico. O projeto confirma a necessidade de enfrentar o desequilíbrio de poder que favorece as grandes plataformas online em detrimento da saúde das sociedades democráticas. Se legisladores cederem ao lobby das big techs, o futuro do jornalismo estará ameaçado — assim como o direito dos cidadãos a acessar informação confiável.
A investigação destaca o alcance global alarmante desses esforços antirregulatórios. No Brasil, Google e Meta organizaram uma ofensiva contra o “PL das Fake News” (PL 2630), proposto em 2020, que buscava combater a desinformação, trazer transparência à publicidade política e à moderação de conteúdo, além de garantir remuneração ao jornalismo. As empresas alegaram falsamente que a lei “proibiria a Bíblia”, lançaram uma enxurrada de anúncios pagos e realizaram mais de 200 reuniões com parlamentares para travar seu avanço. Em 2023, o projeto de lei foi “enterrado”. Do outro lado do mundo, na Indonésia, o Google atacou fortemente regulações que imporiam algum tipo de compensação aos veículos de notícias pelo uso de seu conteúdo na plataforma, conseguindo evitar obrigações vinculantes sobre transparência algorítmica e repartição de receitas no setor.
Redes obscuras de lobby
A investigação revela uma rede descentralizada de influência, operando por meio de ex-autoridades, associações comerciais e grupos de fachada que ocultam o envolvimento direto das plataformas. Um exemplo notável é o do ex-presidente brasileiro Michel Temer, que atuou como intermediário informal para empresas de tecnologia durante negociações sobre regulação de plataformas — um caso emblemático de lobby pela “porta giratória”.
Entre 2019 e 2025, a investigação identificou 2.977 ações de lobby feitas por big techs em dez países e na União Europeia, envolvendo 1.414 representantes empresariais e 2.506 autoridades públicas. As táticas incluíram:
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Lobby de porta giratória: contratação de ex-agentes públicos para atuar em favor das empresas.
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Astroturfing: financiamento de iniciativas acadêmicas ou cívicas que parecem independentes, mas que se opõem à regulação de maneira alinhada aos interesses das plataformas.
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Evasão legal via extraterritorialidade: argumento de que leis nacionais não se aplicam quando dados são processados no exterior, usado notadamente no Equador e na Colômbia contra legislações de privacidade.
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Campanhas de desinformação: promoção da ideia de que a regulação equivaleria à censura ou ameaça à inovação — uma narrativa repetida em todo o mundo.
A disputa pela remuneração de conteúdo e o Google News Showcase
Leis que obrigam grandes plataformas a pagar pelo conteúdo jornalístico que utilizam — conhecidas como códigos de negociação — são hoje um dos principais campos de batalha. Google e Meta têm tentado bloquear ou enfraquecer essas iniciativas por meio de:
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assinatura de acordos confidenciais com veículos selecionados;
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campanhas públicas que enquadram a regulação como excesso burocrático;
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pressão diplomática exercida por meio de governos estrangeiros.
A investigação também analisou o Google News Showcase, um agregador de notícias promovido como um investimento de 1 bilhão de dólares no jornalismo. Na prática, ele tornou as redações financeiramente dependentes da receita vinda do Google, enfraqueceu negociações sobre códigos de negociação e pode ser usado pela empresa como escudo para evitar reivindicações de direitos autorais na hora de treinar seus modelos de inteligência artificial.
Sobre a investigação
A Mão Invisível das Big Techs é uma investigação transnacional e colaborativa liderada pela Agência Pública e o Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em conjunto com Crikey (Austrália), Cuestión Pública (Colômbia), Daily Maverick (África do Sul), El Diario AR (Argentina), El Surti (Paraguai), Factum (El Salvador), ICL (Brasil), Investigative Journalism Foundation – IJF (Canadá), LaBot (Chile), LightHouse Reports (Internacional), N+Focus (México), Núcleo (Brasil), Primicias (Equador), Tech Policy Press (EUA) e Tempo (Indonésia). Além da RSF, o projeto tem o apoio da equipe jurídica da organização El Veinte, e identidade visual da La Fábrica Memética.
Fonte: RSF
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