Violência contra crianças e adolescentes: risco ao alcance de um clique força ações múltiplas
O desafio de cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes é algo que extrapola os muros das escolas. A internet ampliou as possibilidades de riscos de violações diversas, como abuso sexual de crianças, e levou o bullying para qualquer lugar onde a vítima e o agressor tiverem acesso a redes sociais. Se os fatores adoecedores estão por toda parte, a rede de proteção também precisa ser ampla e ter ações interligadas.
“O cyberbullying vai além do muro da escola, mas a vítima e o agressor se conhecem ali dentro. É a vivência no ambiente escolar que determina essa relação entre ambos, por isso o papel da escola é essencial. Mas, sozinhos, os educadores não conseguem agir. Nossa pesquisa concluiu que as crianças e adolescentes que têm laços familiares mais frágeis e não têm supervisão dos responsáveis são mais vitimadas pelo cyberbullying. Então, sabemos que a proteção familiar tem peso grande na saúde emocional”, conta a coordenadora da pesquisa da UFMG com base nos dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), Deborah Carvalho Malta.
A escola e a família são eixos importantes para garantir o bem-estar dos estudantes, mas também precisam de apoio. “Não podemos deixar a escola isolada. É preciso pensar uma política que envolva órgãos de saúde, assistência social e segurança”, defende a advogada Cléo Garcia, pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem).
“A orientação é que as crianças nem tenham redes sociais. Se tiverem, o monitoramento dos pais deve ser ativo. O acesso livre ao celular é tão lesivo quanto deixar uma criança sozinha na rua à noite”. Arthur Benício – Delegado da PC de Minas Gerais
Redes Sociais. Dados obtidos com a Meta, marca dona do Facebook e Instagram, mostram o quanto o ambiente virtual é perigoso para crianças e adolescentes. No início deste ano, ao menos 635 mil contas foram removidas das plataformas por deixarem comentários de cunho sexual ou solicitarem imagens íntimas a perfis de menores de 13 anos no Brasil. A maioria dos predadores mantinha mais de uma conta vinculada.
A Meta não detalhou o período exato abrangido pelos dados, enviados em julho. Para se ter ideia, apenas no Telegram, plataforma de mensagens, este ano, até o mês de maio, 394,9 mil grupos e canais de conteúdos de abuso sexual infantojuvenil foram excluídos – dois por minuto, sendo que cada comunidade reúne até 200 mil membros.
O especialista em tecnologia Victor Góis alerta que até conteúdos inofensivos se tornam alvo de predadores. “Vídeos não explícitos, como crianças dançando ou em situações cotidianas, são iscas. Nos comentários, predadores usam termos codificados para negociar material ilegal ou direcionar os usuários a outros canais e trocar imagens impróprias”, conta.
Delegado especializado em crimes cibernéticos da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), Arthur Benício afirma que os casos de violência contra crianças e adolescentes na internet, principalmente cyberbullying e abuso sexual, que são os mais recorrentes, estão em escala crescente no estado: “Já estamos identificando crimes que usam inteligência artificial para manipular cenas de nudez em rostos de crianças reais”, alerta.
Vigilância a cada detalhe salva estudantes
Após os casos de ameaças a escolas, o Ministério da Educação (MEC) tem coordenado uma ação multidisciplinar por meio do Programa Escola que Protege (ProEP). Em nota, a pasta explicou que serão investidos R$ 24 milhões até 2027 com impacto em 28,1 milhão de alunos em todo país. O programa atua em alguns eixos principais como formação de profissionais da educação para o enfrentamento das violências nas escolas, combate ao bullying e construção de estratégias para melhorar o ambiente escolar.
A psicóloga e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), Luciene Tognetta, explica que o programa do governo é um passo importante, mas lembra que faltam algumas ações básicas. “As universidades não deram conta de inserir nos currículos a formação dos professores para lidar com o sofrimento emocional. Então esses meninos e meninas precisam de um olhar cuidadoso da escola. Precisam de espaço para falar sobre seus sentimentos, para participar da organização das regras da escola, para se sentirem pertencentes a espaços que, quando erram, não serão expulsos ou punidos”, afirma.
A neurocientista psicanalista e psicopedagoga Ângela Mathylde Soares explica que os adolescentes cometem erros e sofrem de forma amplificada em função do não amadurecimento. “A gente precisa saber que os neurotransmissores, a circuitaria da crítica, da moral, da regulação, só se formaliza aos 25 anos. Isso significa que precisa de ter uma pessoa observando, um adulto responsável observando porque falta essa estrutura”, diz. A metodologia proposta pela especialista é “pare, observe e investigue” os sinais de sofrimento emocional.
Para Luciene, inserir nos cronogramas escolares debates sobre questões como misoginia, racismo, masculinidade tóxica e outros preconceitos é uma estratégia forte de formação de pessoas e não técnicos. “A violência manifestada é a dramatização de um mal maior que cresce demais dentro do adolescente e ele passa a não suportar mais”, conclui.
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