De acordo com Boyland, os conhecimentos obtidos com o estudo ajudarão na elaboração de políticas públicas urgentes de marketing de alimentos restritivas que possam proteger a saúde das crianças. “Também indicam que devemos pensar de modo mais amplo sobre o ambiente midiático ao qual as crianças estão expostas e as regulamentações devem ser abrangentes e preparadas para o futuro”, afirma.
Isso reforça ainda mais a importância de medidas como as que serão colocadas em prática a partir de outubro deste ano no Reino Unido, onde passam a valer novas regras que vão restringir fortemente a veiculação de propagandas de alimentos “menos saudáveis” (com alto teor de gordura, açúcar ou sal) na TV e online.
“O estudo é muito interessante, mas ainda é preciso avaliar melhor como isso acontece e se os resultados estão ligados à suscetibilidade individual para ganhar peso”, opina o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, do Instituto Pensi, em São Paulo, que desenvolve pesquisa e ensino voltado ao aprimoramento de profissionais de saúde infanto-juvenil.
A atuação dos pais é essencial
Fisberg avalia que, hoje, as crianças sofrem maior influência das mídias eletrônicas do que das tradicionais. Isso porque os conteúdos digitais dialogam de forma mais direta com esse público, além de serem mais dinâmicos e utilizarem estratégias subliminares mais sofisticadas.
“De qualquer forma, é importante que os pais controlem a questão alimentar sem ser autoritários, mas também sem ser permissivos e entendam que nada precisa ser proibido se for esporádico. O segredo está no equilíbrio”, diz o médico, que é professor associado aposentado do Setor de Medicina do Adolescente, da Escola Paulista de Medicina (Unifesp).
A endocrinologista pediátrica Jéssica França da Silva, do Einstein Hospital Israelita de Goiânia, considera os resultados preocupantes. Segundo ela, as crianças formam o grupo mais vulnerável à persuasão da publicidade, já que são facilmente atraídas não apenas pelas comidas em si, mas também por brindes e brinquedos que acompanham muitas vezes esses produtos.
Assim como Fisberg, ela reforça a importância do papel da família nesse contexto. “Os pais são os grandes balizadores da alimentação infantil e podem, sim, mitigar essa influência limitando o tempo de exposição das crianças às telas e colocando seus filhos mais em contato com conteúdos educativos nesse sentido, como vídeos de receitas saudáveis”, orienta.
Ela orienta que os adultos conversem com os filhos sobre a importância de frutas, verduras e outros alimentos in natura, estimulando a curiosidade e o interesse das crianças por escolhas mais nutritivas. Para isso, recomenda oferecer esses itens de forma variada e criativa, incluir a criança nas compras e no preparo das refeições e até experimentar novos sabores juntos, transformando o momento em uma experiência prazerosa e educativa. Segundo a especialista, esse envolvimento ajuda a criar vínculo afetivo com a comida de verdade, favorece hábitos saudáveis a longo prazo e reduz a influência negativa das propagandas de ultraprocessados.


