Aumento de suicídio de crianças e adolescentes

Veículo: Diário de Pernambuco - PE
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Aumento de suicídio de crianças: uma das principais causas deste crescimento é a vulnerabilidade no lar, como agressões, falta de cuidado e apoio inter-relacional, que perpassa gerações

Aumento de suicídio de crianças
Foto: Freepik

Ideias suicidas na adolescência não são incomuns. Muitas vezes fazem parte do rol de estratégias para lidar com as situações difíceis da vida. O problema realmente se agrava, quando essas ideias se tornam a única ou a mais importante alternativa. Um suicídio costuma ser pensado, planejado e antecedido por tentativas. Os realizados por impulso são raros. Para cada suicídio masculino consumado, há entre 30 a 50 tentativas.

No caso do suicídio feminino consumado, há entre 150 a 300 tentativas. Embora não haja estatísticas sobre o comportamento suicida em crianças, no período de 2006 a 2017, foram identificados 58 óbitos de crianças brasileiras decorrentes desta causa, com a maioria sendo do sexo masculino, de cor da pele branca e com 9 anos de idade. O enforcamento foi o meio mais utilizado por elas para se matar.

As internações por tentativas de suicídio, no mesmo período, somaram 1.994 casos, com predominância entre os meninos, em todas as regiões do país. Sobre as notificações, a maioria está relacionada a crianças entre 8 e 9 anos de idade, com cor da pele parda e do sexo feminino, com destaque à autointoxicação. Os dados são do Ministério da Saúde, que afirma que os casos de suicídio aumentaram 43% no Brasil em uma década.

Entre os adolescentes, o aumento foi de 81%, indo de 3,5 suicídios por 100 mil adolescentes para 6,4. Nos casos em menores de 14 anos, houve um aumento de 113%, fazendo do suicídio a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

Uma das principais causas é a vulnerabilidade no lar, como agressões, falta de cuidado e apoio inter-relacional, que perpassa gerações. Há relatos de violência física ou psicológica e negligências na família, em praticamente todos os casos pesquisados, assim como  existe uma história pregressa de suicídio familiar ou envolvendo amigos, colegas, vizinhos ou conhecidos. A grande maioria dos casos têm histórico de problemas psiquiátricos na família, com destaque para ansiedade e depressão, inclusive em gerações anteriores.

Quase a metade dos adolescentes pesquisados tem familiares que abusam do uso de álcool. Entre as motivações, também há registros de desentendimentos e rompimentos com namorados(as), abuso sexual, bullying, abuso de álcool e entorpecentes, separação dos pais, pressão escolar, estresse pós-traumático, obesidade, interação negativa em redes sociais virtuais e problemas decorrentes de atração por pessoa do mesmo sexo.

Muitas vezes, não é apenas uma  situação que induz o jovem a querer tirar a própria vida, mas uma série de pequenas e decepcionantes circunstâncias, que levam a uma sensação de desesperança. Pesquisas sugerem que uma em cada sete crianças está sujeita a sofrer depressão. Para cada suicídio consumado,  há pelo menos 100 adolescentes que tentaram, mas não conseguiram dar cabo da própria vida.

PREVENÇÃO AO SUICÍDIO INFANTOJUVENIL

A pesquisa Violência Autoprovocada na Infância e Adolescência identificou 15,7 mil notificações de atendimento ao comportamento suicida entre adolescentes nos serviços de saúde no período de 2011 a 2014. O perfil que mais se destacou foi do sexo feminino, de 15 a 19 anos, de pele branca. O estudo ainda revela que é na residência o local mais frequente desta ocorrência e na região Sudeste.

Diante destas estatísticas, é importante observar alguns fatores de proteção, sendo que o principal é a conexão com a família. É necessário desenvolver estratégias de prevenção ao suicídio, caso note sinais de que a saúde mental da criança ou adolescente está ameaçada. Portanto, aqui estão algumas sugestões:

  • Procurar aperfeiçoar a inteligência emocional dos jovens (como solucionar problemas, tomar decisões, lidar com a raiva, resolver conflitos e comunicar-se sem medo de se afirmar).
  • Transmitir ensinamentos e conhecimento, mostrando que todos passamos por experiências negativas e o que importa é focalizar o positivo.
  • Procurar se relacionar com o jovem de forma  tranqüila e equilibrada, ensinando, por meio de exemplos concretos, como lidar com a fúria.
  • Afirmar que ele é importante, amado e levado a sério.
  • Não esperar que ele venha até você. Uma sugestão para dizer: “Você parece triste. Estou aberto(a) para falar sobre isso, porque amo você e me importo com o que lhe acontece”.
  • Prestar atenção nas grandes mudanças nos padrões de sono, apetite e atividades sociais. O auto isolamento, especialmente para crianças e adolescentes que geralmente gostam de sair com amigos ou praticar esportes, pode sinalizar sérias dificuldades.
  • Tentar não declarar que tudo é “drama adolescente“. Observe se há exagero ou é apenas brincadeira quando ele(ela) disser ou escrever:

“Eu quero morrer”

“Eu não me importo mais”

“Nada importa”

“Eu me pergunto quantas pessoas iriam ao meu funeral”

“Às vezes, eu gostaria de apenas dormir e nunca mais acordar”

“Todo mundo estaria melhor sem mim”

“Você não terá que se preocupar comigo por muito mais tempo”

  • Responda ao jovem com empatia e compreensão. Isto se chama escuta afetiva, onde a intenção é deixar a pessoa falar até se esvaziar e se sentir leve.
  • Quando o jovem falar ou escrever sobre suicídio, não cultive magoa ou raiva. Procure criar um espaço seguro, onde ele(ela) possa confiar em você. Evite dizer:

“Isso é uma coisa ridícula de se dizer”
“Você tem uma ótima vida – por que você acabaria com ela?”
“Você não quer dizer isso”
“Eu não posso acreditar no que estou ouvindo!”

  • O que dizer, emanando empatia:

“Parece que você está com uma dor tremenda e não consegue ver uma saída”
“Talvez você esteja se perguntando como a vida ficou tão complicada e difícil”
“No momento, você não tem certeza das respostas para os problemas que está enfrentando”
“Você deve estar realmente sofrendo por dentro para considerar acabar com sua vida”

  • Esconda bem ferramentas e substâncias potencialmente letais como:
    Armas de fogo;
    Álcool;
    Drogas ilícitas;
    Produtos domésticos de limpeza e outros produtos venenosos;
    Inalantes;
    Facas, navalhas ou outras armas;
    Cordas, cintos ou sacos plásticos.
  • Incentive-o a ver a família, amigos ou vizinhos. O apoio social ajuda o jovem a se sentir melhor.
  • Evite disputas de poder com relação a eventos ou convites específicos, para evitar  conflitos que levem ao estresse.
  • Sugira exercícios físicos, pois eles elevam a sensação de bem-estar.
  • Incentive a moderação. Adolescentes em crise precisam ir com calma consigo mesmos, adotando um ritmo mais realista. Sugira, por exemplo, que as tarefas grandes sejam divididas em tarefas menores e mais gerenciáveis. À medida que a confiança do jovem aumentar, ele se sentirá mais disposto a assumir mais responsabilidades.

SIGNIFICADO DO SETEMBRO AMARELO

Setembro Amarelo é o mês de prevenção ao suicídio e conscientização sobre transtornos mentais. O Brasil adota a campanha desde 2015. A escolha desse mês tem relação com o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, comemorado em 10 de setembro. Foi uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

A campanha brasileira se inspira na americana, que surgiu em 1994, após a morte de Mike Emme, que se suicidou aos 17 anos. Parentes e amigos distribuíram cartões com frases de apoio durante o velório. Esses cartões foram amarrados em fitas amarelas, uma referência a cor do carro do jovem. A iniciativa influenciou outras pessoas a participarem de projetos de conscientização sobre suicídio, sendo adotada posteriormente por instituições de saúde.

 

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