Como as crianças formam a consciência negra

Veículo: A Gazeta - ES
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Talvez você já tenha ouvido dizer que “não basta não ser racista, tem que ser antirracista”. A frase que circula em redes sociais e é repetida por muitos não é apenas uma “maneira de falar”. É uma necessidade premente porque, embora o Brasil seja um país reconhecido por sua diversidade, o preconceito está impregnado no cotidiano.

Então como, num contexto tão adverso, as crianças podem formar a consciência negra, valorizando a cor de sua pele, os traços do seu rosto, a textura do seu cabelo, a sua cultura? A resposta não é simples, nem é uma só. Mas o fato é que a responsabilidade para a construção de uma identidade positiva desde a infância é de toda a sociedade.

A educação antirracista precisa ser uma prática nas escolas, públicas e particulares, e também no ambiente familiar, se estendendo ainda a outros espaços sociais. Tanto para fortalecer nas crianças pretas e pardas o entendimento sobre a sua potência quanto para ensinar às demais a importância de valorizar os povos negros, com toda a sua contribuição para as mais diversas áreas, como cultura e ciência.

Como é formado o processo de consciência racial?

A consciência racial, tanto de brancos quanto de negros, é formada nas relações sociais, explica a doutora em Psicologia Luziane Guedes, especialista em Políticas Públicas e professora da Ufes.

“O certo seria pelas relações construídas, de amizade, identificação, acolhimento. Trabalhar desde pequenos com a representatividade, com exemplos positivos, com brinquedos, bonecas e personagens negros, livros, para facilitar esse desenvolvimento pautado em reconhecimento”, afirma.

O que muitas vezes acontece, no entanto, é que por causa do racismo, a criança “se descobre uma pessoa negra muito cedo e de forma dolorosa, porque percebe que é diferente por sofrer com falas depreciativas e atitudes violentas”, explica Luziane Guedes.

Educação antirracista nas escolas

“Para falar da construção de uma educação antirracista, o primeiro ponto é pensar nas políticas educacionais e estratégias pedagógicas da diversidade, que precisam passar pelo corpo docente, pela gestão e, então, chegar aos estudantes”, avalia a especialista em Educação Juliana Yade, do Itaú Social.

Para ela, é um desafio pensar em estratégias que possibilitem às crianças negras se olharem e se sentirem valorizadas dentro do ambiente educacional, mesmo na rede pública em que a maioria dos alunos é preta ou parda.

Avançar nesse quesito significa, na opinião de Juliana, reconhecer a desigualdade racial na educação brasileira e, sobretudo, cada vez mais se posicionar contra o racismo, não raramente institucional.

Juliana observa que muitas vezes as práticas pedagógicas não dialogam com o fortalecimento da identidade negra. Um dos caminhos, sugere a especialista, é trabalhar a literatura em sala de aula com personagens pretas, além de adotar livros de autores negros.

“É oferecer a possibilidade de a criança se ver de forma plena, entendendo que todas as suas características físicas — cabelo, os traços, a cor da pele — também têm valor. Até porque estamos em uma sociedade que muitas vezes valoriza determinados traços e cultura em detrimento de outra.”

Noelia Miranda, pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), concorda que a literatura é uma estratégia que contribui para o fortalecimento da identidade das crianças, e ela mesma já se dedicou a produzir quatro títulos para o público infantojuvenil, com temática afro e também indígena.

Mas a educadora chama a atenção para um aspecto, de que não basta colocar um pretinho ou pretinha na capa do livro ou de uma atividade escolar.

“Tem que ter todo um conteúdo forte, vivo, latente, para terem isto como verdade: elas são potentes, são bonitas, podem sonhar em ser príncipe e princesa, reis e rainhas, cientista, médico, advogado, professor, o que quiserem”

O sonho é algo simbólico porque, segundo Noelia, não é raro retirar das pessoas negras o direito de sonhar devido ao racismo. “Mas a escola é lugar de sonho, de possibilidades, de fazer a criança acreditar nela, no potencial dela, e não silenciar, invisibilizar”, reforça.

A pesquisadora aponta que a potencialidade do corpo negro, da sua religiosidade, cultura e tradição, foi por muito tempo silenciada. As mudanças mais significativas para o ambiente escolar só passaram a ser implementadas com as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, ou seja, não faz nem 20 anos que se tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileiras nas escolas de educação básica, pública e particulares.

Antes, lembra Noelia, a história dessa parcela da população se reduzia ao período em que era escravizada. “Mas isso não é encantamento. São lindas as histórias e a ancestralidade dos negros, descendentes de pessoas inteligentes na área da medicina, da arquitetura, que dominaram as tecnologias mais antigas. Temos que avançar na decolonialidade, quer dizer, trazer a figura do negro aliado a histórias de encantamento para que a criança quando veja possa dizer: ‘este sou eu’, ou ‘parece com a minha avó’. Toda essa relação de encantamento, de entender que ser negro é bom, que o seu lugar não é do subalterno, do escravizado.”

Avanços e retrocessos na lei

Se de um lado a legislação ajudou a avançar em pontos fundamentais, de outro, novas alterações em lei criaram obstáculos, aponta Maria Gabriela Verediano, professora da rede estadual e coordenadora do projeto de educação antirracista Descolonize.

A escola, segundo ela, precisa colocar em prática o que, na sua constituição, já tem no papel. Nos documentos oficiais, por exemplo, está previsto que a grade curricular deve oferecer noções de cidadania que abordem a diversidade e questões raciais no Brasil.

“A falha é multifatorial: vai desde falta de professores com formação específica em Sociologia até a redução de aulas de Ciências Humanas no Novo Ensino Médio. Existe uma contradição do que está previsto e do que de fato acontece. A lei 10.639 prevê o ensino obrigatório da História e Cultura Afro-Brasileira no ensino básico. No entanto, o Novo Ensino Médio, que reduz justamente as aulas que mais abordam essas temáticas, não permite que a lei seja plenamente executada.”

“Se a escola não fala da minha cultura, do meu povo, sem folclorizá-los, eu não me vejo de fato pertencente a esse espaço institucional”

Não é mimimi, nem brincadeira

Assim como as escolas, as famílias também têm um papel importante nesse processo, sejam elas negras ou não. De acolhimento para os casos em que as crianças são vítimas do preconceito e também de promover uma educação antirracista dentro de casa e em outros ambientes sociais, como parques, igrejas e clubes.

“Vemos muito o racismo recreativo, com pessoas dizendo ‘eu só estava brincando’. Racismo não é brincadeira. É uma questão tão séria que vai minando a potência vital de uma pessoa”

Ela conta uma experiência pessoal sobre o dia em que seu filho de seis anos, negro retinto (pele mais escura), chegou em casa aborrecido porque estava sendo apelidado de “marrom” e “chocolate” na escola.

Juliana perguntou como o menino se sentia e, diante da resposta de que não gostava daquele tratamento, o acolheu e orientou a falar para os colegas que queria ser chamado apenas pelo nome. “Ele está se entendendo neste mundo e não precisa passar por esses estereótipos”, constata.

Mas ela sabe que, para algumas famílias, lidar com a questão racial é muito doloroso e não é simples. Assim, ressalta Juliana, quando a escola pensa em estratégias de fortalecimento para as crianças negras, é preciso pensar também para as famílias que, nem sempre, vão saber — ou conseguir — acolher seus filhos.

“É muito importante a participação das famílias no debate da educação racial de seus filhos”, afirma a professora Maria Gabriela. Ela acrescenta que a escola é um espaço que só faz sentido com a participação da comunidade porque toda a sociedade colabora para formação cidadã das crianças e adolescentes.

Muitas vezes é a escola que consegue reunir aspectos da vida do aluno — saúde, cultura, trabalho — e vários setores da sociedade se comunicam com a rede estabelecida no espaço escolar.

Também do projeto Descolonize, a advogada Viviane Lupim destaca que, diante de um caso de racismo ou injúria racial, a situação não deve ser tratada como um problema menor.

“Primeiramente, a família deve ouvir essa criança ou adolescente, e entender que foi vítima de um crime e encorajá-la a denunciar. A partir disso, se municiar de todas as provas (testemunhas ou prints, caso o crime tenha sido cometido na internet) e procurar as autoridades competentes para fazer a denúncia. Se for possível, buscar o auxílio de um advogado ou advogada especialista em crimes raciais, para que a vítima seja acompanhada e não corra o risco de ter seu depoimento invalidado ou desqualificado nas esferas policiais”, orienta.

Racismo religioso

Não há dúvidas da importância da escola e das famílias na construção de uma sociedade em que as pessoas não sejam discriminadas pelo seu tom de pele e cultura. Entretanto, quando predomina a desinformação, esses espaços tornam-se também lugares de preconceito.

Noelia Miranda recorda-se do caso de uma criança de nove anos que não pôde fazer um trabalho escolar em dupla, pois a colega disse que a avó não a queria na sua casa porque a menina é preta.

A professora resgatou ainda o caso da Malu, agredida verbalmente por outras crianças no condomínio em que morava, por conta do cabelo black. São episódios que reforçam o racismo, reproduzido por meninos e meninas ao ouvirem o discurso de adultos.

Além das características físicas que são alvo de ataques, pesquisas no país revelaram que, nas escolas, o racismo religioso é o que mais prevalece, segundo Noelia Miranda. São famílias que não querem que o professor ensine o congo, por exemplo, porque a dança apresenta elementos das religiões de matriz africana.

A educadora lembra, porém, que é direito das crianças aprenderem sobre a história e a cultura afro-brasileiras, e os espaços educacionais precisam ter o compromisso de cumprir o que diz a legislação.

“A gente precisa educar o Brasil para uma equidade racial, para que o branco, o negro, o indígena, todos sejam respeitados integralmente”, defende.

Nesse contexto, Juliana Yade observa outro aspecto. A especialista acredita no avanço da formação docente, particularmente porque há grande oferta de cursos por institutos e fundações, disponíveis inclusive pela internet, para aprimoramento do conhecimento.

Quando se trata da questão racial, entretanto, há crenças individuais que comprometem a atuação profissional. Algo que, na avaliação de Juliana, deve ser monitorado pelo Ministério da Educação e pelas secretarias.

“São professores e professoras que não vão abordar questões atinentes à legislação por conta de uma convicção pessoal. Mas não se trata mais de gosto pessoal, a lei precisa ser cumprida para garantir o bem-viver e a cidadania de todas as pessoas, com uma sociedade equânime, justa e acolhedora. Todos ganham com a diversidade”, finaliza Juliana Yade.

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