Moradia e primeira infância: ambiente precário e insalubre pode causar estresse tóxico nas crianças, segundo especialistas

Veículo: Globo.com - BR
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Um drama social comum em todos os estados brasileiros é a questão da precariedade da moradia. Na primeira infância esse problema fica ainda mais preocupante.

O arquiteto e fundador do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos participou de uma pesquisa da instituição para compreender como as condições precárias de moradia refletem no desempenho escolar das crianças. Eles analisaram crianças da quarta série de uma mesma escola pública da cidade de São Paulo.

“As crianças que moravam em condições de habitabilidade inadequadas tinham quatro vezes mais chances de serem reprovadas do que as crianças que moravam em unidades unifamiliares.”, explica.

Monica Barbosa Aleixo, é manicure e moradora da favela do Vietnã, na Zona Sul da cidade de São Paulo.

Ela mora com o marido e seus três filhos pequenos e esbarra em uma série de dificuldades em relação à moradia. “Eu não gostaria mesmo de criar o meu filho assim, num lugar assim. Aqui passa homem armado, polícia correndo. Você não tem segurança nenhuma de nada. Eu não sei te dizer como é que vai ser o futuro deles mais pra frente. Eu tenho até medo.”

Quando a criança vivencia um estado de alerta contínuo, que não tem uma resposta protetiva, isso vai intoxicar o organismo dela e impedir novas conexões neurais saudáveis, é o que explica a representante da Fundaçāo Bernard Van Leer no Brasil, Cláudia Vidigal.

“É como se a criança fosse ficando presa num sistema tóxico de alerta e de adrenalina. Isso vai sim impactar o desenvolvimento e ela vai vivenciar um estresse tóxico que impede o desenvolvimento integral.”

Patrícia Aparecida dos Santos é outra moradora que vivencia os problemas sociais da comunidade do Vietnã. Ela mora com o marido e as três filhas pequenas e conta que viveu os seus 42 anos de vida em um barraco de madeira. O córrego – que é a vista da janela da casa da família – é a sua maior preocupação na comunidade.

“É muito risco né. Eu tenho medo de desabar com todo mundo dormindo. Como que vai correr com os becos cheios de água? Eu vou ter corrida pra onde?”, desabafa.

O problema de moradia está diretamente ligado com a saúde também. Vera Cordeiro é médica e fundadora do Instituto Dara. No início do seu trabalho na área da saúde, percebeu um ciclo vicioso entre miséria e as internações de pacientes: ela tratava a pneumonia, a pessoa voltava pra casa com condições insalubres e tempo depois a doença retornava.

“A doença é a ponta do iceberg. Por trás tem uma moradia inadequada. Se você não tratar a causa, e não tratar do sintoma que é a doença, você não vai resolver o caso das crianças mais vulneráveis brasileiras. Ela vai esbarrar com violência sexual, vai esbarrar com violência doméstica, vai esbarrar com uma mãe fora de si, porque essa mãe faz tripla jornada: gerar renda, cuidar dos filhos, cuidar da casa. Essa mãe ter sanidade mental é exigir demais.”

Grazielle Cristina Beraldo mora na favela do Nove, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Um relacionamento abusivo e violento e condições precárias de moradia afastaram ela de sete dos seus quatro filhos.

O pai tentou matar os dois filhos mais velhos e eles foram morar em um abrigo. Os filhos gêmeos nasceram com problemas respiratórios graves e o médico alertou que eles precisariam de um ambiente confortável e espaçoso.

A casa onde Grazielle vive não oferece essas condições e as crianças estão morando com a madrinha. “Eu aguentei tudo isso com medo de não ter condições de pagar um aluguel, de eu não ter como dar um alimento pra eles, uma roupa pra vestir. Então eu aguentei isso nove anos calada.”

A especialista em primeira infância, Cláudia Vidigal, defende que o problema de moradia precisa entrar na agenda de quem trabalha na área. “A gente não está acostumado ainda a pensar que a moradia impacta enormemente o desenvolvimento das crianças e que poder compreender a situação de cada uma das crianças é um indicador inclusive pra prioridade em serviços.”

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