Pesquisa mostra que creches e pré-escolas concentram maioria dos casos de racismo na infância
Uma em cada seis crianças de até seis anos é vítima de racismo no Brasil. O dado é do estudo “Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo”, realizado pelo Datafolha a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, e reforça o que movimentos sociais e famílias negras já vinham denunciando há décadas: a discriminação racial atravessa os primeiros espaços de socialização das crianças brasileiras.
Mais da metade dos episódios relatados na pesquisa (54%) acontecem em creches e pré-escolas, lugares que deveriam garantir proteção, acolhimento e desenvolvimento. A discriminação também é mais frequente entre crianças cujos responsáveis são negros, grupo no qual o índice chega a 19%. Entre aquelas com responsáveis brancos, o percentual cai para 10%.
Para Juliana Prates, integrante do Núcleo Ciência Pela Infância, o que mais chama atenção é a descoberta de que 63% da população reconhece que o racismo já atinge os primeiros anos de vida, demonstrando um avanço no reconhecimento dessa preocupação. Passo importante para inserir a questão racial no centro da agenda de desenvolvimento infantil, que é influenciado pelas dimensões interseccionais de classe, raça, gênero e território.
“É urgente tratar dessa questão já nas políticas da primeira infância porque esse é um período sensível. As experiências vividas nessa fase são, tanto positiva como negativamente, acumuladas ao longo do desenvolvimento.”
A especialista ressalta que a constatação das creches e pré-escolas como espaços também onde a discriminação é percebida, evidencia questões estruturais importantes, como a necessidade de uma formação contínua de professores, além de lacunas nos materiais pedagógicos. Ainda assim, defende a importância de frisar que a creche e a escola são espaços também de proteção, quando possuem uma política e uma formação antirracista.
“Os avanços em termos de proteção social não foram alcançados entre todas as crianças. A mortalidade infantil, a desigualdade de acesso ao pré-natal, à vacinação, atinge as crianças negras, que são as maiores vítimas de violência e da ausência desse sistema de garantia de direitos.”
O Panorama detalha que o racismo na primeira infância provoca vivências adversas que geram estresse tóxico, comprometendo tanto o desenvolvimento físico quanto o socioemocional. Um dos caminhos apontados pelo estudo é a urgência de aplicar de forma efetiva a Lei 10.639/2003, que prevê o ensino da história e da cultura afro-brasileira desde a educação infantil. Apesar de já se passarem mais de 20 anos desde sua promulgação, cerca de 70% das secretarias municipais de Educação ainda não adotaram medidas concretas para garantir seu cumprimento.
Para sensibilizar gestores, educadores, profissionais de saúde e as próprias famílias sobre os impactos do racismo, Juliana Prates aponta para a importância de uma das expertises do Investimento Social Privado (ISP): a produção de pesquisas e evidências científicas de curto e longo prazo. Números que podem apoiar políticas públicas, programas educativos, entre outras iniciativas.
“É preciso explicar em uma linguagem acessível como esses episódios repetidos de discriminação afetam a regulação emocional, a atenção, a própria aprendizagem e que isso se traduz muitas vezes na evasão escolar, no baixo rendimento, numa maior procura por serviços de saúde mental”, avalia.
A partir da demonstração desses impactos, é possível incidir com mais força na formação dos profissionais que atuam com as crianças e na adoção de protocolos de denúncia.
“É importante que a gente tenha histórias, brinquedos, imagens, rotinas que falem e reflitam sobre a diversidade e forneçam instrumentos para promover a autoestima e uma identidade racial que valorize a diversidade”, finaliza.
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