‘Se o Brasil quer um grande futuro, precisa de educação melhor’, diz OCDE

Veículo: O Globo - RJ
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Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) divulgados nesta terça-feira mostram que o sistema educacional do país está entre os piores do mundo. A performance foi classificada como uma “tragédia” pelo próprio ministro da Educação, Mendonça Filho. E para sair dessa situação, a receita é simples: tornar a educação uma prioridade, com mais e melhores investimentos.

— O Brasil atravessa um período econômico difícil, mas é preciso estabelecer prioridades — disse Andreas Schleicher, diretor de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pela aplicação do Pisa, em videoconferência promovida pelo Jeduca. — Existe uma clara falta de recursos. Se o Brasil quer um grande futuro, precisa de uma educação melhor.

Entre os 70 países avaliados pelo Pisa, o Brasil é um dos que menos investe na educação. O custo por estudante, dos 6 aos 15 anos de idade, é de US$ 38.190, muito distante dos US$ 130.611 investidos por Cingapura, país que apresentou a melhor performance nos exames. A situação pode se tornar ainda mais complicada caso a Proposta de Emenda à Constituição que congela os gastos públicos por 20 anos seja aprovada.

Entretanto, ressalta Schleicher, o dinheiro é importante, mas não é decisivo. O próprio Pisa mostra que é possível conseguir melhores performances com menos investimentos. A Colômbia, por exemplo, investe apenas US$ 24.395 em seus estudantes dos 6 aos 15 anos, mas no exame de ciências, disciplina foco desta edição do Pisa, alcançou nota média de 416 pontos, bem superior aos 401 pontos dos jovens brasileiros. O vizinho Uruguai, que investe US$ 31.811 teve média de 435, e a Bulgária, com gasto por estudante de US$ 29.980, alcançou 446 pontos.

O próprio país aumentou de forma significativa os gastos por estudante nos últimos anos. Na última edição do Pisa, divulgada em 2013, a estimativa era que o investimento por estudante, dos 6 aos 15 anos, era de US$ 26.765. O problema foi que o aumento dos gastos não se refletiu na melhoria da performance.

— Não é só sobre dinheiro, mas sobre prioridades — disse Schleicher.

Um dado destacado pelo Pisa que ilustra um dos principais problemas do sistema educacional brasileiro é o da falta de professores. Na média dos países da OECD, existem 13 estudantes para cada professor, mas essa razão é de 29 no Brasil, valor próximo da República Dominicana (30), Colômbia (28) e México (28). Não por acaso, esses quatro países estão entre os piores nos exames de ciências.

— A qualidade do ensino é uma escolha política. O Vietnã, que também é um país pobre, fez uma escolha diferente do Brasil, de valorizar os professores — disse Schleicher. — É preciso tornar a carreira de educador mais atrativa intelectualmente. Na China, professores assistem aulas de colegas, têm tempo para se dedicarem na melhoria do próprio trabalho. E isso não tem relação apenas com a questão financeira. Os educadores não se tornam educadores pelo dinheiro, mas porque querem fazer a diferença na sociedade.

AMPLIAÇÃO DO ACESSO

Mas nem todos os resultados do Pisa são negativos para o Brasil. Schleicher fez questão de destacar o bom trabalho no país no aumento do acesso à educação. No Pisa de 2003, apenas 56% dos estudantes de 15 anos estava na escola e cursando ao menos o 7º ano, percentual que subiu para 61% em 2009 e 71% nesta edição, relativa a 2015.

— É um resultado impressionante — destacou Schleicher. — A performance do Brasil não melhorou muito, mas a mudança aconteceu na igualdade de acesso.

De acordo com o diretor de Educação da OCDE, é possível que o resultado médio do país no exame tivesse sido melhor sem esse processo de inclusão, pois os alunos que foram integrados ao sistema são de camadas mais populares, que, na média, apresentam menor desempenho acadêmico. Por outro lado, o especialista se disse decepcionado com a performance dos estudantes da rede particular, que possuem melhores condições socioeconômicas e de estrutura nas escolas.

— Quando se olha as notas, as escolas privadas se deram melhor. Mas se considerarmos a situação econômica, esses estudantes de escolas privilegiadas tiveram uma performance baixa. Comparando com ambientes similares em outros países, eles não podem competir — disse Schleicher. — Eu esperava resultados muito melhores das escolas privadas.

 

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