‘Será que é coisa da minha cabeça?’: a angústia do racismo velado na primeira infância
O racismo se manifesta na vida de crianças negras antes mesmo que elas consigam compreender plenamente o mundo ao redor. A psicóloga e psicanalista Flavia Fernanda, integrante do Instituto Viva Infância, explica em entrevista à Alma Preta que essa violência está ligada a processos históricos.
“Devido às múltiplas violências históricas. O racismo estrutural é remanescente do sistema colonial e perpetua processos de opressão. Quando falamos das infâncias, isso se traduz na adultização precoce de crianças negras, na exposição a diferentes formas de violência e, sobretudo, nas negligências do Estado diante do genocídio”, diz.
Essa adultização precoce significa retirar da criança o direito de viver plenamente a infância. Em vez do brincar, recaem sobre ela responsabilidades como cuidar de irmãos, realizar tarefas domésticas e, em alguns casos, até trabalhar. Flavia Fernanda ressalta que nem mesmo famílias negras em ascensão social conseguem proteger seus filhos completamente, pois eles enfrentam constrangimentos relacionados ao corpo, à estética e à cultura.
Já a psicóloga Natália Silva, do Grupo Reinserir Psicologia, destaca que a percepção desse sofrimento pode ser identificada desde cedo. “Já na primeira infância é possível fornecer ferramentas para que uma criança reconheça e nomeie suas emoções e, por consequência, seu sofrimento.”
Racismo explícito e velado: formas de violência
As manifestações do racismo não se limitam a situações diretas, como ofensas verbais. Elas podem ocorrer de maneira explícita, quando a violência é assumida, e também de forma velada, mais sutil e difícil de identificar.
Natália Silva explica que o racismo explícito envolve ataques diretos, como chamar alguém de “macaco” ou “cabelo duro”, enquanto o racismo velado se manifesta em gestos cotidianos que desvalorizam e invisibilizam crianças negras, como quando professores ignoram necessidades específicas e as classificam como “difíceis” ou “preguiçosas”.
“Por vezes, ser vitimado por esse tipo de violência acrescenta camadas de complexidade, pois deixa uma sombra de dúvida, aquele pensamento constante de ‘será que é coisa da minha cabeça?!’. Geralmente não é”, diz Natália. Esse tipo de situação mantém muitas crianças em silêncio, impedindo-as de nomear e compreender a violência que sofrem.
Impactos na saúde mental
O racismo atua como gatilho de adoecimento, afetando diretamente o corpo e a mente. Silva observa que toda pessoa submetida a situações de violência apresenta aumento do nível de estresse, tensão constante e sensação de estar sob ameaça permanente.
Esse estado de alerta contínuo interfere na autoestima, desorganiza a autoimagem e pode levar a quadros de ansiedade, depressão e sintomas físicos, como dermatites. No contexto escolar, essas experiências podem se refletir em conflitos frequentes, recusa em frequentar as aulas e queda no rendimento.
A psicóloga Lília Décia, também do Instituto Viva Infância, chama a atenção para os efeitos prolongados desses traumas, que se estendem para a vida adulta.
“As consequências, na vida adulta, são inúmeras. No campo coletivo, a mulher negra carrega estigmas de domesticidade e silenciamento; o homem negro, de agressividade, desonestidade e preguiça. Trata-se de um projeto político colonial e higienista que controla corpos, cristaliza imagens de dor e submissão, apagando produções, construções e autonomia”, explica a profissional.
Outro efeito duradouro é o processo de racialização, no qual a criança se percebe diferente num contexto social que valoriza a brancura. Muitas vezes, esse sofrimento permanece sem nome até ser reconhecido no contato com pares ou em terapia.
O peso do silêncio social
O silêncio social agrava o sofrimento e reforça a invisibilidade de quem é vítima de racismo. Flavia destaca que a estrutura racista determina quem pode falar, quem pode ser ouvido e quem pode existir publicamente. Quando experiências de discriminação não são reconhecidas ou discutidas, o sofrimento se transforma em angústia e adoecimento psíquico.
Diante desse cenário, a escuta atenta se torna essencial. Natália Silva orienta que pais e responsáveis estejam atentos ao que as crianças dizem, acreditando nelas e investigando o contexto que gerou aquele discurso. “Ouça o que uma criança diz, acredite nela e, a partir disso, vá buscando o contexto concreto que produziu aquele discurso.”
No ambiente escolar, no qual muitas das primeiras experiências de discriminação acontecem, a atenção deve ser redobrada. Lília Décia reforça que a escola tem papel central na socialização e deve abordar questões étnico-raciais desde os primeiros anos.
“Pesquisas mostram que a escola, como agência socializadora, deve abordar questões étnico-raciais desde os primeiros anos. É nela que surgem, de forma precoce, situações de preconceito e discriminação, com impacto direto na saúde mental”, relata.
Políticas públicas e proteção da infância negra
A proteção da infância negra não pode se restringir à família ou à escola. A ausência de políticas públicas efetivas reforça a invisibilidade e perpetua desigualdades históricas. Lília Décia destaca que é responsabilidade do Estado reparar historicamente essa população, garantindo acesso à saúde, educação e assistência social, em consonância com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.
No campo clínico, Natália Silva alerta que uma psicologia que ignora a questão racial contribui para perpetuar a violência. A escuta deve se comprometer com a equidade e a justiça social.
A psicanalista Cláudia Mascarenhas propõe a “clínica do contexto”, abordagem que considera as condições históricas, sociais e culturais na escuta de bebês e cuidadores. Reconhecer o racismo como determinante de saúde mental e nomeá-lo é essencial para que ele deixe de atuar no silêncio.
Reconstrução da imagem e do pertencimento
A superação dos impactos do racismo exige reconstrução da imagem e do pertencimento coletivo. Lília cita a historiadora Beatriz Nascimento para reforçar a importância da visibilidade na formação da identidade:
“É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem-se que tornar-se visível. Porque o rosto de um é o reflexo do outro. O corpo de um é o reflexo do outro. E em cada um, o reflexo de todos os corpos”.
A frase sintetiza a ideia de que, ao ser protegida e reconhecida, a infância negra pode se constituir como espaço de potência, e não de silenciamento.
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