Análise de Mídia sobre Educação Infantil
(2025)

Realização:
ANDI – Comunicação e Direitos
Iniciativa: Fundação Bracell
Apoio Técnico: Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca)
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A Educação Infantil, além de ser um direito de todas as crianças, constitui-se em um campo fundamental para o desenvolvimento do ser humano, numa etapa da vida em que os estímulos e as oportunidades fazem muita diferença.
Das pesquisas na neurociência que revelam que as conexões neurais até os 6 anos alcançam uma velocidade inigualável em outras fases da vida aos estudos liderados por James Heckman[1], já sabemos dos impactos positivos das iniciativas e ações voltadas para a promoção do desenvolvimento das crianças pequenas – especialmente àquelas em condições de vulnerabilidade – e para a sociedade. Desse modo, não é exagerado afirmar que a educação, enquanto processo social de formação humana, é fundamental para a promoção do desenvolvimento individual e da sociedade.
O ambiente escolar desempenha um papel central no desenvolvimento integral, atuando nas dimensões física, cognitiva, emocional e social das crianças pequenas. A creche e a escola de Educação Infantil são os espaços onde elas começam a se inserir nas dinâmicas sociais e culturais, expandindo experiências, possibilidades de interação com outras crianças e adultos e tomando contato com a vida em sociedade. Também é na Educação Infantil que se fundam as bases da trajetória escolar da criança, influindo até no seu desempenho escolar futuro e na qualidade de sua vida adulta[2].
Como documenta o estudo “O impacto do desenvolvimento na primeira infância sobre a aprendizagem”, do Núcleo Ciência pela Infância[3], dentre os benefícios identificados em diversas experiências internacionais desde os anos 1960 estão ganhos cognitivos no curto prazo, melhora dos níveis de aprendizagem no médio prazo e melhora na escolaridade e renda no longo prazo. Em síntese, não é exagerado dizer que as crianças que frequentam a Educação Infantil tornam-se adultos mais saudáveis, com maior escolaridade, empregabilidade, qualidade de vida – ou seja, em condições mais favoráveis para exercer a cidadania e contribuir para avanços sociais.
Porém, não basta o acesso à escola: o impacto positivo da educação depende da qualidade da oferta, a qual se traduz em professores bem formados e engajados no desenvolvimento infantil, programas estruturados e turmas pequenas, entre outros aspectos[4].
Em 2024, o Brasil deu um passo essencial para a qualificação da oferta da Educação Infantil no país, com a atualização dos Parâmetros Nacionais de Qualidade da Educação Infantil[5], em um processo que envolveu o Ministério da Educação (MEC), organizações da sociedade civil e organismos internacionais. O documento foi a base para o Conselho Nacional de Educação (CNE) elaborar as Diretrizes Nacionais de Qualidade e Equidade da Educação Infantil[6], que determinam parâmetros para os sistemas de ensino e escolas de todo o país.
Não bastasse a relevância da Educação Infantil, os Parâmetros e Diretrizes reforçam a importância do debate público sobre o tema, contribuindo para fortalecer na sociedade a compreensão, a importância e a mobilização para garantir uma oferta de qualidade de educação às crianças pequenas, tendo em vista, vale ressaltar, a garantia de um de seus direitos fundamentais.
A mídia é um ator chave nesse movimento, pois é o campo capaz de assegurar mais visibilidade dos temas, dos desafios e dos avanços na educação para a primeira infância. Esse papel torna-se mais relevante à luz dos desafios – ainda significativos – que o Brasil enfrenta na oferta de vagas, na qualidade, na permanência e, especialmente, nas profundas desigualdades que atravessam as diversas infâncias brasileiras.
O país tinha 39,8% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas na creche, segundo a Pnad Educação 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ao passo que o Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado em 2014 previa, na Meta 1, oferta de vagas para atender 50% da população desta faixa etária até 2024. Na faixa etária de 4 e 5 anos, etapa de escolarização obrigatória compatível com a pré-escola, o atendimento deveria estar universalizado em 2016; no entanto, em 2024, a taxa de atendimento é de 93,4%, de acordo com a Pnad[7].
Diante dos consensos da ciência quanto à pertinência de se canalizar investimentos para o desenvolvimento da primeira infância – o que inclui promover uma educação de boa qualidade – e dos desafios que o país enfrenta nesse campo, cabe perguntar: como a mídia tem se comportado na cobertura da Educação Infantil?
Esta é a pergunta que a Análise de Mídia da Educação Infantil, conduzida pela ANDI – Comunicação e Direitos com apoio da Fundação Bracell e da Associação dos Jornalistas de Educação (Jeduca) pretende responder.
A partir da análise de 5.116 notícias publicadas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, em cinco jornais de alcance nacional, dez jornais com repercussão regional/local e três portais de notícia, a pesquisa traça um panorama dos principais temas, abordagens e fontes ouvidas, entre outros aspectos, dessa cobertura.
O retrato delineado pela Análise é o de uma cobertura que direciona o olhar para a Educação Infantil, com ênfase nos veículos regionais e locais, mas que, ao mesmo tempo, se guia por episódios não diretamente relacionados às questões da educação – como é o caso dos ataques violentos contra instituições escolares. Além disso, questões relacionadas ao acesso e à infraestrutura têm destaque na cobertura, especialmente nos veículos regionais/locais, o que é uma indicação de quais são os temas que mobilizam as famílias e a sociedade em geral.
Em contrapartida, a qualidade da oferta e a importância da Educação Infantil para o desenvolvimento da criança têm participação minoritária no noticiário, o que chama a atenção e leva a uma reflexão sobre a necessidade de fortalecer o espaço para essas questões.
Resultados como esses traçam um panorama da cobertura jornalística, revelando ausências e temas que merecem a atenção do noticiário, sobretudo aqueles ligados ao acesso à educação de boa qualidade, um direito social fundamental das crianças. Nessas lacunas e oportunidades constituem-se, justamente, as possibilidades de fortalecimento do espaço dedicado pelos veículos à Educação Infantil. Quais são os assuntos que devem ganhar mais relevância nas notícias e, consequentemente, no debate público? Afinal, cabe à imprensa um papel central na incidência pela garantia dos direitos sociais.
Boa leitura!
[1] James Heckman demonstrou, com base em evidências econômicas, que investimentos de qualidade na primeira infância geram altos retornos sociais e econômicos, reduzindo desigualdades e aumentando produtividade ao longo da vida. HECKMAN, James J. Giving Kids a Fair Chance. Cambridge: MIT Press, 2013.
[2] Disponível em: https://www.mds.gov.br/webarquivos/arquivo/crianca_feliz/Treinamento_Multiplicadores_Coordenadores/impacto_desenvolvimento_primeira%20infancia_sobre_aprendizagem.pdf. Acesso em 30/07/2025.
[3] Disponível em:https://ncpi.org.br/publicacao/o-impacto-do-desenvolvimento-na-primeira-infancia-sobre-a-aprendizagem/. Acesso em 15/08/2025.
[4] Disponível em: https://ppe.ipea.gov.br/index.php/ppe/article/viewFile/1351/1098. Acesso em 30/07/2025.
[5] Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=264261-parametros-nacionais-para-qualidade-da-educacao-infantil&category_slug=outubro-2024&Itemid=30192. Acesso em 30/07/2025.
[6] Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=265031-rceb001-24&category_slug=outubro-2024&Itemid=30192. Acesso em 30/07/2025.
[7] Pnad Contínua Educação 2024: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102180_informativo.pdf. Acesso em 12/07/2025.

